Eles são de Marte, e nós também

Tenho visto muita gente fazendo comparações entre os políticos brasileiros e os de outros países, no que diz respeito ao trato da coisa pública. O primeiro ministro inglês que vai de metrô para o trabalho, o presidente uruguaio que anda de Fusca, os parlamentares escandinavos que só recebem ajuda de custo, etc.

Enquanto isso,  os políticos brasileiros têm uma enorme dificuldade de entender a distinção entre o que é público e o que é privado – o governador do Rio mora em seu  apartamento no Leblon, dispensa a estrutura da residência oficial, consome recursos para manter sua segurança e a de sua família (isso sim um assunto de Estado), se desloca de  helicóptero e, acredito,  genuinamente não entende por que as pessoas estão reclamado. Para Sérgio Cabral (o filho), assim como para toda a classe política, os privilégios fazem parte da liturgia do cargo. Como diz meu pai, a mentalidade política brasileira parou na monarquia, em que o Tesouro pertence ao Rei para usá-lo como queira.

O problema é que ao mesmo tempo em que a sociedade brasileira claramente deseja dar um basta a essa confusão, me parece que a questão de fundo não está sendo atacada. Ao contrário do que a Veja quer nos convencer, nossos políticos não vieram de outra galáxia. Faz parte da cultura brasileira reconhecer status através das pequenas e grandes mordomias. Nenhum de nós, se fôssemos governadores de qualquer coisa, andaríamos de metrô. (Tá, eu sei, você andaria, mas faz de conta que estamos falando do seu vizinho.)

Os políticos têm que escutar o que as ruas estão pedindo – uma mudança radical de comportamento. Mas acima de tudo, as ruas têm que se escutar. Se Narciso acha feio o que não é espelho, precisamos mudar se queremos que eles mudem – porque eles somos nós.

-Monix-

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