Um rio de conflitos

Há quanto tempo estão acontecendo as manifestações no Brasil? Um mês? Confesso que estou com preguiça de procurar. Li em algum lugar o termo “jornadas de junho” e gostei, embora “revolta do vinagre” seja muito mais divertido, é claro. Enfim. O movimento começou e quando a gente acha que galere cansou e vai voltar pro videogame, um novo fôlego surge e volta todo mundo pra rua.

O protesto de ontem foi convocado pelas centrais sindicais, e a expectativa ao longo da semana, pelo menos onde eu circulei, era de que seria mais uma passeata à moda “antiga”, com lideranças no carro de som gritando palavras de ordem, os sindicalistas de sempre puxando o cordão, e aquela nossa velha e conhecida sensação de que esse discurso “não nos representa”.

Mas não foi isso o que aconteceu, pelo menos não aqui no Rio – não vou me aventurar a falar das outras cidades, pois mal entendo o que acontece na minha, que dirá. Aqui, mais uma vez, o que poderia ter sido uma “passeata chapa branca” se transformou numa manifestação caótica de protestos contra um governo estadual que está totalmente descolado da realidade, manifestação esta que recebeu como resposta a força do tacape da polícia fluminense.

Desde o início das jornadas de junho, a atuação da polícia em todos os estados do Brasil tem sido chocante. Mas acho que no Rio temos um cenário diferente – aqui o buraco é mais embaixo. Parece que o “fator UPP” desestabiliza – a impressão que tenho é que tem mesmo uma turma da bandidagem infiltrada e provocando a polícia. Li no Facebook* que “a bandidagem do São Carlos deu ordem de seus asseclas descerem pras ruas no dia da marcha até a Prefeitura”, coisa de que não duvido. Ou seja, é bem possível que, pelo menos aqui, esteja ocorrendo mesmo uma “orquestração” do tal “vandalismo”.

Só que aí acontece o fenômeno: a polícia fluminense, aquela que supostamente seria a “pacificadora”, que teria entrado nas comunidades quebrando o ciclo da violência e trazendo a cidadania para o morro – só que não, como descobrimos tardiamente -, reage do único jeito que sabe: dispersando toda e qualquer aglomeração de mais de três pessoas na rua, descendo o cacete e impondo o toque de recolher. Veja bem: é claro que a polícia não pode deixar o caos e a destruição tomarem conta da cidade. Se é verdade que há traficantes misturados aos manifestantes, isso tem que ser observado, identificado e combatido, é claro. Mas como temos uma polícia acostumada a agir apenas com base na truculência, há décadas, longe das câmeras e da classe média, eles só sabem responder dessa forma. Aí dá problema, porque né? Jogar spray de pimenta na cara do representante da Anistia Internacional no Brasil e gás lacrimogênio no hospital particular não estava no script, qualquer script.

Já li também algumas teorias da conspiração sobre agentes da P2 insuflando a confusão, coisa de que também não duvido, possivelmente a mando ou com o consentimento do governador, que estaria querendo um pretexto para bater nos manifestantes. Segundo quem esteve na rua, a polícia não confronta os verdadeiros bandidos (até porque contra esses não dá pra ir só com bala de borracha e gás), mas ataca apenas os manifestantes pacíficos.

Em resumo, é um caldo cultural que não pode acabar bem: traficantes tentando retaliar o governo que dificultou sua atuação + polícia despreparada usando as táticas que adotam nas comunidades só que contra a classe média + policiais à paisana criando a desestabilização para justificar a porrada + autoridades omissas (na melhor das hipóteses) ou coniventes (na pior).

Para encerrar, o recado do amigo deste blog Marcos VP, que não deixa muito espaço para otimismo.

“Hoje, agora, neste momento, no Rio de Janeiro, das duas, uma: ou o governador e o prefeito são dois facínoras como poucas vezes se viu nessa cidade, ou simplesmente não controlam mais nada, estão acuados em suas salas e o poder constituído está na mão de sabe-se lá quem. A única certeza é que esse alguém tem divisas nos ombros. O Rio vive um clima de estado de sítio. E vocês se preocupando com o Obama.”

-Monix-

* O Facebook e o Twitter são também fatores que alteram o equilíbrio do jogo tradicional, mas sobre isso todo mundo já falou. É algo completamente novo poder contar com relatos de dezenas, centenas de pessoas que mostram de forma independente, não coordenada, o que veem. Não há interesse escuso nem comprometimentos outros que não os de suas próprias consciências, e na minha rede de amigos já identifiquei dois ou três que estão atuando ativamente na disseminação de informações nos momentos críticos. É muito mais fácil, para mim, confiar no testemunho de quem eu conheço e estava lá. Essa novidade muda tudo – a conferir.
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2 Respostas

  1. Muito bom o seu texto.

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  2. perfeito

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