Meus dois centavos sobre Lulu, privacidade e outros bichos da internet

O assunto mais falado dos últimos tempos esta semana é um aplicativo chamado Lulu no qual mulheres avaliam os homens de sua rede de contatos no Facebook, atribuindo notas e tags descritivas sobre o cidadão, tudo anonimamente e sem a permissão dos avaliados.

Boa parte da discussão tem a ver com a legalidade ou não do aplicativo. Pelo que entendi, tecnicamente está tudo de acordo com o sempre polêmico termo de uso do Facebook. Mas há espaço para questionamentos por conta das questões do anonimato direito de imagem e outros aspectos jurídicos que deixo para pessoas mais qualificadas analisarem.

Como interessada em cultura digital, minha atenção se desvia para outros pontos da questão. Se me permitem, aí vão meus dois centavos sobre o assunto:

– A tecnologia não é trazida para o planeta Terra por alienígenas malvados; ela é desenvolvida por seres humanos completamente imersos em nossa cultura e absorvidos pelo “espírito do tempo”. Se alguém consegue pensar em alguma coisa antes de desenvolvê-la, é porque esta coisa faz sentido para este alguém. E se milhares (milhões?) de outros alguéns aderem a uma nova ferramenta tecnológica é porque, convenhamos, essa ferramenta tem a ver com os valores de uma época. Isto posto, digo sem medo de errar que o Lulu não é para a minha geração. A lógica é toda Geração Y, nativos digitais, etc.

– À medida em que a tecnologia avançava (décadas antes da internet comercial estourar no mundo todo), todos nós fomos concordando em abrir mão de nossa privacidade em troca de segurança. Câmeras de segurança foram instaladas em todos os lugares, em nome de “proteger os cidadãos”, e, sejamos honestos, quase todos achamos foi ótimo.

Intervenção urbana de Banksy

Intervenção urbana de Banksy

 

O que o Facebook faz (e todas as outras redes sociais idem) é expandir esse conceito. Ao aceitar o tal termo de uso que não lemos, o que estamos fazendo é abrir mão de nossa privacidade em troca de benefícios: estar em contato com amigos, ver o que eles estão fazendo, lendo, para onde estão viajando; xeretar a vida alheia; jogar Candy Crush em grupo; (… complete aqui com seus próprios motivos…). Privacidade não era um valor essencial na Idade Média e tudo indica que não será no século XXI. É bom nos habituarmos com a ideia ou ficaremos obsoletos cedo demais.

– Ao criar o Facebook, Mark Zuckerberg almejava torná-lo a infraestrutura da internet. Por isso ele permite que outras empresas desenvolvam plataformas se utilizando do código da rede. Uma das polêmicas em relação ao termo de uso é que o texto considera sua rede de amigos como uma informação pública. Sutilezas jurídicas à parte, esta é a base conceitual de uma rede social. Se suas conexões não foram públicas, não há rede. Quando acontece uma situação como a desta semana, todos nós nos lembramos do quanto abrimos mão ao entrar no Facebook, reclamamos, esmiuçamos as filigranas legais, e continuamos lá, postando fotos de viagem e vídeos de gatinhos. Daqui a uma semana ninguém mais se lembra do incômodo, até que venha a próxima polêmica. A verdade, por dolorosa que seja, é que estamos, sim, dispostos a abrir da privacidade em troca dos benefícios que o Facebook nos oferece. Durmam com essa.

– Cá entre nós, apesar de tudo o que disse aí acima, queria só dizer que, sendo uma legítima representante da minha geração, acho sim o fim da picada avaliar os outros publicamente, jamais faria isso, onde esse mundo vai parar, e se fosse comigo, etc etc etc ad infinitum. Mas não posso deixar de esboçar um sorrisinho ao lembrar que antes do protofacebbok que criou quando estava em Harvard, Zuckerberg desenvolveu justamente um aplicativo para avaliação das mulheres do campus. Ou seja.

-Monix-

 

Reações

b9a2fcdf2d2d34f3e7c829f52286e8b7

Trem Fantasma, Robert Doisneau, 1953

432684762b2f3728edf8bf8ea36ac195

Helê

Lista de preferências

Sardas nos ombros. Cílios – longos, curvos, cheios, notáveis. Covinha. Mão forte. Combo pé de galinha + sorriso. Músculos perceptíveis. Barba de 3 dias. Nariz com personalidade.  Aqueles dois furinhos que ficam onde terminam as costas  e começa a bunda. Olhinho apertado. Boca carnuda. Coxas idem. Sotaque. Rubor. Olhar matador.

tumblr_mu1f9jykdn1rldfx8o1_500

(Source: the-sex-artist, via aberrantbeauty)

Colabore com as suas 😉

Helê

Trocando o dia pela noite

Night Run: lá fui eu enfrentar a corrida noturna, percurso com areia e asfalto . Já havia corrido na areia, já há algum tempo os 5km deixaram de assustar. O bacana era correr sob a lua, num percurso desconhecido, eu que sou movida pela busca do novo nessa atividade que se mostra cada vez mais familiar e sempre surpreendente.

***

Não deu pra “roubar”, correndo na areia durinha perto do mar. A maré estava alta, a areia não estava tão dura e pior, estava muito inclinada, diminuindo a vantagem de correr ali. O jeito foi encarar a areia fofa, na qual você faz o dobro do esforço para percorrer a metade do trajeto. O objetivo passou a ser “não caminhar”; tive que me reprogramar mentalmente e ajustar o botão Perrengue para dois níveis acima do esperado. Nos primeiros metros precisei concentrar tanto que nem liguei o som. Mas quando o fiz, Des’ree ajudou à beça: “You gotta be bad, you gotta be bold, you gotta be wiser/You gotta be hard, you gotta be tough, you gotta be stronger”.

***

Quando fui para o asfalto foi como se o vilão que segurava meu suspensório soltasse de repente, me senti o coiote atrás do Bip Bip. Pelo menos era a impressão que eu tinha. Mas apesar da velocidade, aumentou o calor, porque perdi a brisa da beira do mar. Quer dizer: se houver a possibilidade do corredor se dar mal, o pobre se dará, esta é a verdade. Mas também é parte da graça.

***

A quantidade de gente parando para se fotografar durante a corrida só não foi mais bizarra do que o cara que eu vi correndo com uma espécie de vara com a câmera na ponta, se fotografando ou filmando o tempo todo. Oi?

***

No último km e meio, de volta à areia, à brisa e com a sensação que a chegada se afastava a cada vez que eu olhava pra ela. De novo: concentra em não caminhar, apenas — porque desistir nunca foi uma opção.

***

1393786_10201686194334864_547678075_nA cereja do bolo foi ter sido  a primeira corrida com a Yabeta, companheira de outros carnavais (metafóricos e reais). Há tempos ela ensaiava começar a correr, e agora foi mordida pelo bichinho da endorfina. Sabor todo especial esse de compartilhar novos prazeres com antigos amigos.

Helê

PS: Essa vitória (ou você duvida que foi uma, independente da colocação?) é dedicada ao casal Rachel Vitalino e Rodrigo Aör, os fofos moradores de Tão Tão Distante (aka Barra da Tijuca), que deram aquela força na logística. Valeu, gente!

Boa semana

tumblr_mtsdzmOadp1run7npo1_500

(borzui Yellow Canna Flower Photograph by Garry Gay)

Porque ainda é primavera – apesar do dia de verão que tivemos hoje no Rio – e isso é algo que não se pode esquecer.

Helê

%d bloggers like this: