Lutar pela paz

Esta semana a grande polêmica da internê é a campanha “Não Mereço Ser Estuprada”, criada após a repercussão de uma pesquisa que revelou que 65% dos brasileiros acham que uma mulher que usa roupas  provocantes “merece ser estuprada”. Houve uma justificada reação de choque, ainda mais quando se constatou que a maioria dos entrevistados da pesquisa era composta por mulheres.

Só que esse resultado não deveria ser assim tão surpreendente.

O Brasil, apesar de nossa auto-imagem de povo pacífico, alegre, até mesmo cordato, é possivelmente um dos países mais violentos do mundo.

Além dos óbvios – e graves – problemas de segurança pública,  não mais circunscritos às principais metrópoles mas já alastrados endemicamente por todo o território nacional, temos um índice de acidentes de trânsito mais alto que a Guerra do Vietnã, ou da Coréia, ou, se duvidar, ambas. Também temos uma questão varrida convenientemente para debaixo do tapete, que é a alta proporção da população negra masculina no índice de mortes violentas (assassinatos) a cada ano.  Sem falar nas nossas cadeias-universidades-do-crime e na nossa polícia que atira primeiro e pergunta depois.

Violência contra mulheres (e homossexuais) não conta, afinal, esses “merecem” quando “provocam” e não sabem “seu lugar”.

Ou seja, né? Não somos violentos. Mas autocrítica não é exatamente nosso ponto forte.

-Monix-

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2 Respostas

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  2. A gente vive isso todos os dias, então (quase) não me surpreendi com o resultado. Mas o que fez cair o queixo não foi ver o que se revelou ser debatido, e sim a pesquisa em si. Porque né? Tão mais simples, em vez de olhar o resultado e ver o que pode ser feito pra mudar isso, dizer que as perguntas foram capciosas e induziam as pessoas a responder “errado”.

    De maneira inversa, me lembrou muito isso aqui:

    “Os South Downs mergulham no Canal da Mancha em Beachy Head, um penhasco escarpado em 180 metros de altura, puro gesso, brilhando ao sol como o sorriso de uma atriz. […] As pessoas já pulavam de Beachy Head antes de Santo Agostinho ter chegado à costa em Thanet para converter os anglo-saxões em 596. […] Assim como outras atividades ao ar livre bem divulgadas, os participantes recentemente aumentaram [de 4 em média em 1965] de forma contínua. Em 1971, foram dez; em 1976, 16; e 12 em 1979. […]

    Mas o terrível registro estacionou brilhantemente. Desde 1975 a taxa de suicídios em Beachy Head caiu para a metade. Isso foi conseguido sem nenhuma obra elaborada, nenhuma vigilância complicada, e nenhuma despesa pública adicional. Apenas mudaram o médico-legista local.

    O novo homem precisava de maior persuasão para aceitar que seus pacientes pretenderam pular. Os bebedores de uísque, por exemplo, receberam o benefício de não estarem em condições de decidir claramente uma coisa ou outra. Das 20 mortes registradas em Beachy Head no período entre 1965 e 1969, 65% eram suicidas. Das 65 mortes em 1975-79, apenas 32% o eram, uma queda de 33% em dez anos.

    Isso representa um avanço sensacional na medicina preventiva. […] Felizmente para a humanidade, o princípio de Beachy Head está sendo adotado em outros campos da medicina. Esse método, por exemplo, já erradicou a cólera de vários pequenos países tropicais, anotando-se nos atestados que a causa da morte foi diarréia de verão. […] Qualquer causa de morte é uma questão de opinião honesta.”

    Richard Gordon, “Os grandes desastres da medicina”
    Editora Ediouro, 1997.

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