O carimbador maluco – ou: um pesadelo de Kafka

I fought the law
And law won

Sonny Curtis

Eu tenho medo de polícia. Talvez por ter nascido durante uma ditadura, não vejo os agentes da lei como pessoas que estão ali para me proteger (como a minha priminha nascida na Suécia acredita, cheia de razão). Somando a isso minha recusa em colaborar com a cultura da corrupção que se traduz em “molhar a mão do guarda”, sou aquela que anda sempre certa – quem me conhece sabe que não bebo nem “só pra brindar”, “só uma bicadinha”, quando estou dirigindo, nem tampouco fico procurando no twitter da Lei Seca onde estão as blitzen para escapar pela direita. Ando acreditando que “quem não deve não teme” e vou em frente.

Daí que quando fui parada na sexta-feira passada* saí do carro super confiante, entreguei meus documentos e soprei o bafômetro na boa. Só que esqueci de contar que apesar de ser super caxias tenho uma incapacidade crônica para entender a burocracia, por isso descobri, tarde demais, que vistoria é uma coisa e licenciamento anual é outra, e que o fato de meu carro estar dispensado da primeira não me liberava de providenciar a segunda. Resultado: meu carro foi apreendido. Numa sexta-feira, às 23:51, horário que mais tarde na história se mostrará importante.

Passei o fim de semana entre a negação e a raiva (de mim mesma), buscando consolo com amigos queridos que me garantiram que ninguém anda com os documentos em dia, que a culpa não era minha, que a punição é desproporcional ao erro e que tudo ia dar certo. Na segunda-feira corri atrás de levantar os documentos e na terça me desabalei até Santíssimo, bairro que nunca fez parte da minha geografia particular. Bairro que fica a 50 quilômetros de distância do meu trabalho. Por que levaram meu carro para lá? Não sei.

O que descobri ao chegar**: além do meu carro, havia centenas de outros, além de motos e vans, muitos há meses no depósito. Para retirá-los de lá, não basta providenciar a documentação. É preciso pagar a taxa de reboque e a diária do depósito, que é calculada na hora pois é preciso saber quantos dias o carro permaneceu no pátio. Mas além da complicação burocrática, tem uma pegadinha quase sádica: há apenas um funcionário para atender a multidão de motoristas que estão ali para retirar seus carros. Uma pequena multidão confinada entre quatro grades, sem lugar para sentar, todos aguardando a senha ser chamada, entre resignados e revoltados, ou ambos.

Foi só aí que me dei conta que eu, em 44 anos da minha vida pequeno-burguesa-classe-média-zona-sul pouco ou nunca tive contato com o Estado, assim, em maiúsculas, e todo seu poder. Estudei em escola particular, tenho plano de saúde, etc. (Cursei universidade pública, mas a vivacidade do ambiente acadêmico superava qualquer dificuldade burocrática.) E olha, a gente sabe que lidar com o Estado brasileiro não é fácil, mas passar pela experiência na própria pele foi como aprender uma dura lição de humildade.

Não há possibilidade de vencer. Você, indefeso cidadão, nunca estará certo a priori – nossa malha burocrática foi estruturada na premissa de que somos um país de desonestos, o que não deixa de ser uma triste verdade. Então tudo tem que ser selado, carimbado, rotulado, autenticado, se quiser liberar.

Havia pessoas lá desde a primeira hora da manhã. Outras tinham começado a peregrinação na véspera. Um homem tentava conferir se o carro estava mesmo naquele depósito, pois teria que pagar 13 mil reais para liberá-lo. Um casal não entendia o porquê de na véspera terem demorado tanto a emitir a guia de pagamento para confirmar se o carro estava no pátio, e no dia seguinte, quando voltaram com tudo pago, já não estava mais.

Eu achava que estava com tudo certo. Aliás, estava até feliz pois tinha descoberto algo que aparentemente ninguém ali sabia: é possível calcular a tal taxa pela internet, no site do Detro. (Detalhe sórdido: aqueles nove minutos da sexta-feira? Sim, foram cobrados. Assim como o sábado e o domingo, que não são dias úteis. Ou seja: rebocam o carro numa sexta à noite, a pessoa corre o mais que pode para recuperá-lo na terça, e paga cinco dias de taxa. Em dinheiro. Em um único banco.) Só que quando chegou a minha vez, faltava um documento. Que só podia ser obtido no Detran. O Detran já estava fechado. A solução: voltar no dia seguinte, antes do meio-dia, ou ter que recalcular tudo, sacar o dinheiro, pagar, voltar para a fila, etc. Uma espiral de insanidade, enfim.

No fim, tudo foi resolvido. Mas, como eu disse lá no início, tenho medo de polícia – ou seja, passei parte da semana com a adrenalina no alto, sem dormir, comendo pouco, com dores no estômago. Sem falar que perdi dois dias de trabalho.

Por isso, crianças, vos digo: não andem sem a documentação em dia. Alguém merece passar por isso, mas não vocês. Nem eu.

-Monix-

* Eu e minha cara de meliante – ou baladeira – que já me fez ser parada pela operação Lei Seca uma meia dúzia de vezes.
** Vale ressaltar, caso não tenham pensado nisso, que obviamente só se pode ir a este lugar com o precário transporte público, visto que o carro está apreendido. Ou então pede-se ajuda a um amigo, parente, etc., e serão duas pessoas a sofrer em vez de uma.
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6 Respostas

  1. Inacreditável. Inaceitável. Revoltante.

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  2. Absurdo! Um pesadelo mesmo!

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  3. Caramba, Mô! Imagino que a porcentagem de apreensão de carros deva aumentar consideravelmente às sextas à noite justamente por causa desta malandragem da taxa diária.

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  4. Uma amiga passou pela mesma situação em são Paulo, documentação com problema, pesadelo para rever o carro. depois da informatização melhorou um pouco, mas ainda o Estado é o paraíso da burocracia, com situações bizarras como esta. E a polícia… 😦

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  5. […] poucas semanas, meu carro foi rebocado e precisei enfrentar a via-crucis da burocracia brasileira. Estava na casa dela quando contei meu drama, e a solução e a ajuda […]

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  6. […] com um breve intervalo para uma viagem de férias que já estava programada há tempos. Tive meu carro rebocado e briguei durante três meses com a (ex)operadora de celular que, depois de fazer uma cobrança […]

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