Estações

Depois de um verão incandescente que pareceu interminável, o outono tomou posse de uma hora pra outra, como se tivesse apenas ido ali comprar cigarro. Não houve transição, a temperatura não foi cedendo. Dormimos nus e no dia seguinte já foi preciso um casaquinho. Fiquei um pouco desnorteada, preciso de transições, rituais, equinócios. (Tenho dificuldades com rupturas).  Acho que isso explica a temporada recente de banzo e desânimo: estações se sucedendo apressadamente, o tempo virando sem me dar tempo para me acostumar. (Preciso de uma explicação, nem precisa ser lógica.)

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Sabe ‘I put a spell on you’? Poizé, acho que foi isso. Sendo que, o ‘you’, no caso, sou eu. Quer dizer: musicalmente impecável, afetivamente um desastre. Fecho com a Nina Simone, mas podemos mudar para ‘Feeling good’?

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Ando cansada. Cansada das pessoas, cansada da maneira como lidamos com o mundo, como fazemos política. Cansada de estar cansada. (Resistirei até o último momento a dizer que estou cansada do feissy porque eu acho que ele é só o meio).  Às vezes acho que a gente fica andando em círculo, pregando para convertido – alguns com inegável talento, é verdade, but still… – enquanto na vida real nossa sociedade acha que mulheres merecem ser atacadas, não importa a premissa.  Cansada, muito cansada.

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Eu sinto inveja, sim. Não do tipo ‘você não merece’, mas da categoria ‘por que não eu?’ Eu tenho ciúmes de quem amo. Eu procrastino, vergonhosamente. E nunca conheci quem tivesse levado porrada.

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(Ezgi Konucu)

Helê, em algum momento no fim do verão

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