Vastas frustrações e pensamentos imperfeitos, paródia mal ajambrada de um título apenas perfeito. Ando assim esses dias, irritadiça, triste, desesperançada, assustada com a idade e suas consequências, tanto as palpáveis quanto as imaginárias. Ao contrário do que disse T., eu sou toda emoção, não raro acachapante, que vai direito do coração pros olhos, liquefeita. A razão intervém sim, do coração para os dedos, é na escrita que ela se impõe, interpela, interrompe e muitas vezes emudece os sentimentos porque exige ordem e lógica onde sobram som e fúria, ordem nenhuma vige. Queria muito escrever como a Marina W., como quem anda de bicicleta e vai comentando a vida que vê e que sente. Também a Angela Scott  escreve de um modo solto e aparentemente leve, mas pleno e fundo, apenas sem peso. Tem a Fal, mas aí elevamos a categoria a níveis que, francamente, não são pro meu bico. Ela tem uma escrita que, quando quer, flana; você lê sem nenhum esforço e quase sem compromisso, mas depois percebe que ficou um perfume tatuado na sua pele. O que quero dizer é que queria ser capaz  de escrever de um jeito espontâneo e menos cerebral, pelo menos deve vez em quando, que desse conta dessas coisas que sinto e percebo e não  assentam num texto quadradinho com começo meio e fim como eu costumo escrever, domando as emoções, maltratando o  português e apanhando de volta. Porque, veja, eu hoje vi a lua mais linda no céu, vermelha imensa, e soube que o moço divertido se matou; encontrei com a amiga querida numa estação de metrô improvável que me deu notícia de outras, e eu senti ainda mais saudade e um tanto de culpa de não estar mais presente. Meus amigos andam fazendo 50, 70 anos, olha que incrível,  e eu celebro com eles verdadeiramente emocionada; M. é mais novo que eu e sofreu um derrame, que angústia. Mas não consigo encarar com otimismo meus 45 que se avizinham e me assombram. Corri 21km na orla do Rio de Janeiro, uma benção, uma façanha, mas ninguém me esperou na chegada, e isso não devia ser mais importante que correr pela primeira vez 21km onde quer que fosse. Quando corri 5km, três dias depois, foi cansativo e surpreendente: eu não havia adquirido superpoderes. Encontrei na rua com alguém que não via há 20 anos e recebi um abraço caloroso, honesto, nada protocolar. Depois, o constrangimento próprio desses encontros; uma coisa afetou a outra mas não sei exatamente como. Se tivesse fingido não ver, como pensei em fazer, evitaria o embaraço, mas perderia o abraço; no fim acho que deu certo. Os alemães entenderam tudo: somos uns carentes, a gente quer ser amado, antes de tudo; perdoamos até goleada. Detesto correr percursos de ida e volta, me manda ir em frente que eu sigo nem tão lépida mas certamente faceira – e isso deve querer dizer alguma coisa, mas a grana não dá nem pro sofá novo, imagina pra terapia. Vejo os documentários sobre o cosmos e o universo como um bandigente inteligente que eu gosto e admiro, como a Tina, Cynthia e a já citada Fal, mas quando assisto eu só penso em poesia, acho tudo irremediavelmente mágico e metafórico, embora eu saiba que é ciência, talvez devesse ser mais séria e reverente. Taí uma coisa que eu tenho dificuldade até de escrever, sempre me parece que comi umas letras e escrevi irreverente errado. A foto da vó argentina e do neto eu chorei nas primeiras 12 vezes que eu vi, e ainda hoje se eu olhar sem preparo não garanto nada. Ando tão a flor da pele que qualquer post de internet me faz chorar .

Helê

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