Mondo (cane) corporativo

Sou uma entusiasta das novas tecnologias, mas reconheço que elas também agilizam e multiplicam  aspectos pouco agradáveis da vida. Por exemplo, agora você tem dezessete maneiras diferentes de se sentir solitário, não é apenas o telefone que não toca: ele não vibra com uatizápi, ou com o sms, nem com ____(complete com o novo aplicativo badalado na última semana). E você carrega esse silêncio pra todo lado, porque passamos 24 horas grudados no celular, esta espécie de marcapasso compulsório moderno.

Também no ambiente profissional a incompetência se expressa de mil e uma novas maneiras: a pessoa assina o e-mail corporativo com o endereço pessoal, celular, skype, dna, uaréver, mas quando você liga para o telefone comercial, que deveria ser o canal primeiro de comunicação com alguém no trabalho, atende uma secretária eletrônica (!). Depois a pessoa vai se mostrando indisponível em cada uma daquelas instâncias em que deveria ser acessível, e só fala com você quando pode/quer. Para isso bastava apenas um número de telefone, não? Parece que faz parte desse universo tóxico esse jogo em que eu finjo que estou ao seu alcance para que você me valorize porque não consegue me encontrar – afinal estou sempre muito ocupado, não atendendo muitas pessoas. E aqueles que atendem em qualquer situação, respondem e-mails em cima da bicicleta ergométrica ou entre lençóis, me fazem lembrar das insuportáveis crianças sem limites. Ou são como elas e querem ser atendidos na hora que bem entendem ou são como os pais atarantados que, não sabendo delimitar fronteiras entre desejo e necessidade, atendem todas as demandas, sem critério.

Tem também o que eu considero uma falta de educação tremenda: você vai para uma reunião e todos estão olhando para pelo menos uma tela – celular, lepitópi, tábleti. Enquanto simula uma participação o indivíduo responde e-mails, torpedos, mensagens no chat. Maravilha, todo mundo multitarefa,  otimizando o tempo. Só que não fica ótimo e sim péssimo: nas semanas seguintes você se vê tendo que repetir ou repassar pontos que foram supostamente tratados naquela reunião. Aquela em que as pessoas estavam mas respondiam a outras – provavelmente iguais a você, cobrando tratos feitos anteriormente.  Ou antecipando futuras reuniões (aliás, reunião é um troço inútil desde a idade da pedra, que persiste porque as pessoas precisam mostrar que têm telas, só pode). Então fique sabendo: multitarefa significa que você faz muitas vezes a mesma tarefa porque não realiza nada com a devida atenção e entrega. Porque a gente não consegue estar presente, este conceito simples que se tornou sofisticadíssimo e que escapa pelos dedos enquanto lemos este texto pensando na mensagem temos que mandar para quem mesmo?

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Helê

5 Respostas

  1. eu li achando que era da monix, pode isso?
    e sim, li já pensando em terminar e clicar no botãozinho partilhar.
    Duca.

    Nesse caso tá valendo, Ana.😉
    Beijoca,
    H.

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  2. li já pensando em terminar e clicar no botãozinho partilhar. [2]
    por sinal, já fiz.

    Obrigada, querido. Beijo grande.
    H.

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  3. Perfeito!
    Também achei que era da Monix :o)

    Deve ser saudade de La otra, Si😉
    Beijo,
    H

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  4. Ótimo!

    Obrigada, Fernanda, volte sempre; a casa é nossa🙂
    Helê

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  5. Ótimo post, como sempre. Definitivamente, celulares touchscreen e assemelhados são pragas modernas. A tecnologia evoluiu, mas o ser humano não. Continuamos escravos dos objetos – os índios tinham razão – que roubam a nossa alma. Abanamos o rabo como cãezinhos amestrados diante de um bola de borracha ao nos depararmos com a última versão do smartphone que, entre outras maravilhas, serve cafezinho, controla seus batimentos cardíacos durante o jogging (ou o “treino”, como se diz hoje em dia) e apaga automaticamente as rugas do seu rosto nas fotos de 150 MP proporcionadas pela máquina fotográfica embutida na diabólica engenhoca.
    Diariamente, somos tratados (merecidamente) como débeis mentais pela indústria tecnológica, que nos empurra, a preços astronômicos, grandes novidades do “mundo digital” que já viraram peça de museu no exterior. Não é à toa que uma das principais empresas do setor se chama “Apple”. Morda a maçã e dê adeus ao paraíso: torne-se mais um zumbi tecnológico, mais um hipnotizado pela nova máquina-de-fazer-doido, discípulo fiel deste novo Reverendo Moon que é (ou era) Steve Jobs.
    Ironicamente, os aparelhos e aplicativos criados para estimular a comunicação entre as pessoas estão na verdade promovendo o afastamento entre elas. Parodiando Chico Buarque, agora é cada um no seu canto e em cada canto um Ipod, um Iphone ou um Ipad. E para meu desencanto, essa banda (larga) não passa…

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