Trânsito

Durante 14 dias fui feliz. O mês era maio, e a cidade, Paris. Encontrei felicidade antes, mas nunca rimou nem durou tanto. Nova York foi uma onda diferente, feito a do Herbert, mas também não senti solidão, mesmo sozinha. De modo que: ou descubro o que me alimenta  e sustenta quando viajo ou viro aeromoça – embora suspeite que esteja um pouco tarde pra isso. Em trânsito a solidão não me alcança;  se ela se aproxima não percebo, estou muito ocupada para isso. Na vida real, oito horas diárias de trabalho (mal) remunerado e mais outras tantas de manutenção da existência – contas/médicos/chatices/etc – e incrivelmente sobra tempo e espaço para se sentir só. Viajar é bem mais preciso: ajusta nossas bússolas, sintoniza frequências seminais,  afina os instrumentos internos. Ou distrai, apenas – é pouco? Tenho sonhado com Portugal e ele me vem em vários sinais, como o livro da Calcanhotto, saga lusa que me arrebatou. Também Minas tem cismado em atravessar meu caminho, seja em canções ou lembranças,  todas inesperadas. Garrei paixão desde a primeira vez que vi aquele mar de montanhas, mesmo sendo menina de beira-mar (modo de dizer, que eu sou do subúrbio, mas ser carioca é se apossar). Minas, o céu mais lindo, a travessia, sempre. Se for ver bem, Minas e Portugal na minha rota faz todo sentido, há mais semelhança entre as montanhas de Ouro Preto e as ladeiras de Lisboa do que um Atlântico pode explicar. Minha mineira amiga Vera, Veríssima – uma pessoa mesmo superlativa,  e também a única que merece usar o feminino de meu Rei – tem toda razão, dias ruins rendem bons textos. Podemos então hoje  nos contentar com um texto meia boca e esperar por um dia assim, mais pro contente? Quero poder escrever desse jeito fluido, esquivando da razão e dando rasteira na ordem, sem embaçar a vista e sem digitar com o coração na mão toda vez. Se não for possível alegria com poesia tô lascada, não abro mão de nenhuma.  Tem também que tristeza cansa, viu? E dá numa rua sem saída, coisa mais sem graça. O ipê não floriu, mas na semana passada teve dois dias lindos, daqueles que dá vergonha sofrer, não fica nem bem. Além do mais eu fiz aniversário , mesmo sem querer, e eu não resisto ao meu aniversário, como observou D., com propriedade. Li e respondi cada um dos meus parabéns, como se cada um deles fosse uma vela, um pedido, uma oração. Sejam fieis.

chinalanternas7

Helê

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