Carlos

“De tudo o que somos ou fomos para os outros, às vezes só resta aquilo que não somos nem nunca fomos para nós. Não faz mal, pensei. Acho que é isso que vai tornando o Amor possível, podermos escolher aquilo de que nós lembramos nos outros.”

respostas a perguntas inexistentes (290) , do blog Não compreendo as mulheres

 

Estas linhas e as ideias que carregam me impressionaram  bastante.  Horas depois de lê-las, ao saber que Carlos Hasenbalg havia morrido, me pus a pensar sobre o que ficou dele. Para muitos ele deixa uma obra indispensável para entender o Brasil (que não se dá a conhecer sem que se trate de relações raciais).  Para mim restaram algumas lembranças: a voz grave, os olhos de um azul profundo, o sotaque quase irresistível, sorrisos e resmungos, bom humor e rabugice combinados, algumas divertidas mesas de bar. Também me lembro dele na festa de trinta anos de uma amiga, tranquilizando a todas nós, pré-balzquianas ansiosas, garantindo que nessa idade começaríamos a ficar realmente interessantes.  Carlos sabia ser galante sem ser cafajeste, habilidade praticamente extinta nos dias de hoje.

Nunca cheguei a ser íntima, nem mesmo próxima; não cheguei a chamá-lo de Carlito, como os amigos. O que torna mais significativo outro episódio guardado no baú das recordações: ele aceitou sem titubear ser fiador do primeiro apartamento que aluguei, assim que passei para o mestrado (curso que ele me incentivou a fazer). Entre sério e brincalhão, mencionou que perdera a conta de quantas vezes havia sido fiador de outras mulheres negras nesta cidade. Era assim o Carlos: alguém que percebia a dimensão política de atos prosaicos, um intelectual coerente na vida pessoal (outra raridade, desde sempre).

Não o via há muitos anos e saber que ele está definitivamente inacessível causa um pesar acanhado, que temo não ter o direito de sentir. Ele morreu em Buenos Aires, só soube alguns dias depois, na ágora virtual do Facebook.  Fazem falta os rituais fúnebres, sobretudo porque a dor, de qualquer tamanho ou natureza, torna-se mais suportável na companhia de outros. As liturgias servem para que a gente organize os sentimentos, se despeça, conte histórias como essas que relembrei aqui, homenageando a pessoa com lágrimas, suspiros e até sorrisos. Permitem que depois a gente siga, tentando esquecer que outras perdas virão e prometendo aproveitar melhor oportunidades, pessoas, a vida, enfim Na falta de outro lugar, acomodo aqui meu pesar, entre carinho e saudade transformados em palavras .

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Helê

Fértil

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(Emeric Chantier – Empty Kingdom – Art Blog via Karen Paul )

Da série “Corações”

Helê

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