Plano

Então eu estou gribada, como já disse alhures. Nada grave, só muito atchim!, saúde, brigada. E moleza no corpo, sem correr 😦  e com mais carência que a média diária permitida por lei. E começam os muitos compromissos nessa época do ano, os inescapáveis, os ininputáveis, os que caem no seu colo e você nem sabe como; providências, caixinhas, decorações precoces como ejaculações, a primavera virando verão, esse mormaço horroroso, coisas que me deixam um tanto atarantada, em resumo. Daí que eu tinha hoje que ir a um “show de talentos” na escola da filha.  Que se apresentaria – mas ela não quis adiantar nada sobre o número. Tá, vou tentar sair mais cedo (do trabalho), chegar mais tarde (no show), comprar o quilo-não-perecível no caminho, saúde, atchim!, obrigada, não necessariamente nessa ordem. Confesso que não me preocupei até que comentei com alguém no trabalho, que fez uma cara de o-que- é-que-essa-menina-vai-aprontar? Minha filha pré-adole criativa e desinibida poderia fazer qualquer coisa, indeed.  Não chegava a ser caso pra ficar nervosa – nem dava tempo. Deu, claro, para alguma culpa (sempre!), e rápido debate mental inconclusivo (“Como assim eu não sei? Devia ter insistido pra saber. Ou não, né, dar liberdade e confiar, não é assim que faz?). Ok, me internem (na ala das mothens, please). Mas nessas horas o que me salva é o meu senso prático: ao invés de me perder em elocubrações eu adoto uma política de redução de danos. Preciso de um plano, e logo que formulo um, relaxo. Seja lá o que for que essa criança inventar, se nada der certo, o que eu faço? Subo no palco com ela, como em “Little Miss Sunshine”. Pronto. Atchim!, saúde, brigada.

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Helê

PS: Nem foi preciso 😉  .

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De vidro

5cfbb438d19c8b7d064bfb14d3dfc31d(Encontrado em gothhipster.tumblr.com)

Da série “Corações”

Helê

 

Sentidos

  •  O sabor da tequila
  • Os cheiros de Paris.
  • Sarah Vaughan cantando “You go to my head“.
  • Qualquer tela do Van Gogh ao vivo.
  • A mão que afasta a seda da pele.

Starry_Night_Over_the_Rhone

Helê

(Tomando uma margarita, e porque eu lembrei do tempo em que blogar também era conversar entre blogues e nos comentários, propondo temas e listas. Alguém mais se habillita?).

Não quero mais nada que me machuque

Este é um dos posts que eu mais gosto de ter escrito e achei que valia a pena republicar (também queria ver como funciona esta função).

Duas Fridas

Esta é a campanha em andamento aqui em casa. Conseqüência imediata: menos três pares de sapatos que me apertavam, já havia algum tempo.

Em minha defesa alego que eram sapatos fechados, do tipo que eu uso pouco. Contra mim admito que não há razão lógica para crer que o sapato que incomodou hoje será confortável daqui a seis meses. No entanto esses pares persistiram, de estação em estação, até a atual revolta.

Porque, veja bem, apesar de ilógico, esse comportamento se mostrou quase um padrão. E o pior, um padrão coletivo, se vc entender as Duas Fridas como amostragem suficiente para o adjetivo. Quando contei pra Monix da campanha ela riu de mim e dela, pois confessou agir de modo semelhante. Será o que isso, gente? Culpa cristã? Anti-consumismo desenfreado? Cacoete de gênero, fruto da iniciação precoce das mulheres nos rituais sacrificiais da depilação, retirada de cutícula, chapinha e outras…

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Grumari

Meu pai é o sujeito da canção do Raul que não acha nada engraçado — macaco, carro, jornal, tobogã, ele acha tudo isso um saco. Exceto praia. Quando ele passou a ter o compromisso de sair comigo e com meu irmão todos os sábados, tinha um problema semanal porque só suportou um programa genuinamente infantil no primeiro fim de semana, quando nos levou ao Tívoli Parque (beijo pra você, velhinho como eu, que entendeu a referência!). Havia o bar, sempre divertido pra ele, mas que a gente achava chato depois de cinco refrigerantes, sete picolés e 20 balas. Vez por outra íamos a Petrópolis, mas desconfio que era um passeio dispendioso, não dava para ser feito sempre. A praia era a melhor alternativa, um lugar que todos adorávamos por diferentes razões: meu pai tomava cerveja, olhava as mulheres, lia o jornal; meu irmão não saia da água e eu alternava entre o mar e ficar torrando à milanesa. O programa também não exigia de meu pai interação constante, que ele não era (continua não sendo) de muita conversa, ainda mais com crianças. Assim, na ilha de edição que é a minha memória há rolos e rolos de filmes de incontáveis sábados passados no Recreio (ou no que era o Recreio há 30 anos) e no que continua sendo a praia mais linda do Rio de Janeiro, o Grumari.

Do Recreio não sobrou quase nada, a não ser a Pedra do Pontal, que deve ter sido mantida por fazer parte de algum condomínio. Mas o Grumari não: permanece impávido que nem Mohamed Ali. Talvez parte do encanto que esse lugar exerce sobre mim tenha ver com este pequeno milagre: a praia à qual cheguei mês passado para uma corrida era virtualmente a mesma que eu deixei décadas atrás, quando ainda disputava com meu irmão quem iria no banco da frente (crianças sentavam no banco da frente, incréus. Cinto de segurança e lei seca também não tinham sido inventados). Sempre sou acometida de um leve pânico ao me aproximar, com medo de que tenham mexido no meu lugar, mas logo respiro aliviada e me delicio com aquela beleza intocada e selvagem. Encontrá-la praticamente intacta preserva algo em mim que não consigo definir em palavras.

Na ilha de edição da memória encurto os momentos de tédio, aborrecimentos ou de insegurança para fixar dias inteiros de sol e cachorro-quente, a amizade com os tiozinhos do único trailer de toda a praia, o prazer de caçar tatuís com meu irmão e depois devolvê-los todos (já éramos conservacionistas, veja você). Pores de sol incríveis de um verão interminável, nós no intrépido fusquinha azul do pai ao som de “Toada”, do Boca Livre, ou “Sultans of Swing”, do Dire Strait, o marzão da Barra crescendo a cada curva. Curvas que eu cruzei no trecho mais difícil da corrida mais desafiadora, uma prova de revezamento de esforço solitário (como todas), mas com celebração coletiva (como poucas). As imagens do passado, que eu achei que me acompanhariam no trajeto, ficaram borradas pelo extremo esforço físico que me obrigou a focar no presente, no próximo passo, na respiração seguinte, só mais um pouco, tem alguém me esperando, preciso continuar. Tive que reforçar a conexão com o presente para conseguir encarar uma escada de pedra e ladeiras diversas depois de 2,5km correndo na areia fofa. O que terminou de maneira apoteótica e ensolarada, cruzando a linha de chegada em grupo e com festa, começou com o dia felizmente nublado quando, sozinha entre muitos, só me acompanhava de perto a dúvida: será que dou conta? Dei, e vivi mais uma experiência memorável no Grumari, esse lugar onde sempre sou feliz.

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Helê

 *Você sabe que está velho quando começa a escrever reminiscências que não têm interesse para ninguém além de você mesmo.
Isso e quando te dão lugar no metrô e você desiste de entender porque – apenas senta.
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