Quarado

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(Fonte: we♥it)

Da série “Corações”

Helê

Imagens de 2014

Eu ainda estava pensando em postar duas fotos que achei marcantes, do ano passado, quando aconteceu aquela barbaridade em Paris e  ficamos todos um pouco atarantados; eu achei que havia perdido o timing. Ou pior: fui atropelada pela violência do presente enquanto ainda ollhava para o passado, com esperança e otimismo. Passados alguns dias, permanece o assombro, mas eu volto a querer belas imagens independente da crueza dos fatos. Tendo para o otimismo da mesma maneira como o escorpião da historinha recai na maldade: é da minha natureza, não consigo evitar. Além do mais, está entre as vantagens do blogue o descompromisso com o calendário e a máxima que os leitores mais antigos já conhecem, o calabocajámorrequemmandanomeubloguesoueu. Assim sendo, quero destacar a foto abaixo,  que segundo reza a lenda, retrata um motorista de ônibus que, preso no trânsito por uma manifestação pró-Dilma, deixou seu posto para se juntar ao ato. Não tenho certeza se aconteceu assim mesmo, mas  basta que seja verossímil. Também não me comove o fato de ter sido um apoio à candidata ou ao partido, mas o gesto em si, espontâneo, grandioso e unificador, ainda que por alguns momentos.  65537_10152382485842021_9048651025854091838_n

 

A outra foto me comoveu profundamente, e fala por si: no dia 25 de novembro, durante protesto em Portland contra a decisão de não indiciar o policial branco que assassinou um jovem negro em Fergson, nos EUA, um menino de 12 anos, Johnny Nguyen, carregava um cartaz oferecendo abraços grátis. O policial Bret Barnum se aproximou, conversou brevemente com Johnny e perguntou se ele também poderia ganhar um abraço. A foto retrata o resultado do diálogo. Neste link há outras informações interesantes sobre o episódio.

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Acho que as duas imagens, cada uma a seu modo, dão bem a cara do que foi 2014, um ano de conflito e confronto, mas em que o inesperado encontrou espaço para se fazer presente e nos inspirar de alguma maneira. Ou foi apenas como eu o vi. 😉

Helê

São Silvestre (e o verão)

Entre as coisas que mais gosto no verão estão as correntes migratórias: pessoas indo e vindo, mil combinações, a possibilidade de rever amigos exilados em terras distantes e estranhas como Joinville, por exemplo 🙂 . Às vezes nem dá pra encontrar, com tanta coisa pra fazer, gente pra abraçar – além desse incômodo que nós locais temos que é o trabalho, que atrapalha bastante os programas. Mas já me alegra o movimento, as tentativas, a revoada, o baticum. Eu mesma comecei o ano em São Paulo, onde fui correr, e de repente me dei conta de que iniciava o ano na condição em que me senti mais confortável nos últimos tempos: em trânsito. Nem planejei, foi consequência da São Silvestre, dos preços das passagens, da minha desorganização. Mas pensando bem isso é típico de correr: você sai achando que vai apenas se exercitar e volta com ganhos que nem tinha imaginado…

***

A propósito da São Silvestre, sobre a qual muita gente me perguntou e ainda pergunta: valeu muito a pena, uma experiência memorável. Foi uma estreia em muitos sentidos: a primeira vez que viajei para correr, a primeira corrida de 15 km, e parece que, para grande parte dos meus conhecidos, a minha primeira corrida de verdade. A foto (ruim) postada no Facebook foi recorde absoluto de likes e comentários, superando as sempre imbatíveis fotos da minha filha. Nenhuma corrida antes dessa despertou tanto interesse – ainda no fim de semana, tanto tempo depois, recebi os parabéns por ela.

Começando pelo lado ruim: a São Silvestre tem erros de organização inacreditáveis para um evento realizado há 90 anos. A começar pelo horário da largada, às 9h da manhã. Se fossem sérias as pessoas que organizam corridas nesse país (se fossem sérias as pessoas nesse país) nenhuma corrida seria iniciada no verão após as 7h da manhã, fim de conversa. Considerando os 30 mil inscritos e o tempo que leva para que você de fato consiga largar, a corrida começa pra geral por voltas das 9h30, 9h50 da manhã, inviável. Além disso, houve erros estratégicos no posicionamento dos postos de hidratação, em um deles a corrida simplesmente parou, nunca tinha visto isso na minha vida! Ninguém se acidentou, nada grave além de: muita gente para pouca rua e um posto onde as pessoas necessariamente diminuem a velocidade logo depois de uma curva. Deu vergonha.

A prova confirma todos os clichês: é a mais famosa do país, uma grande festa, cheia à beça, tem muita gente fantasiada, um percurso difícil e a Brigadeiro é f*da mesmo. A dimensão da prova eu comecei a ter no aeroporto: eu, que já achava o máximo encontrar com gente no ônibus indo pra mesma corrida que eu no Aterro, encontrei levas de corredores já no Santos Dumont. Ouvi a conversa de dois senhores, já por volta dos 60 anos; um deles informava seus planos: “Vou correr essa, que é a 90ª, depois a 95ª e 100ª.” Confiança e autoestima: bons corredores têm.

A grande quantidade de gente fantasiada só se explica, pra mim, pela ausência de carnaval de rua em São Paulo. Sim, temos fantasiados aqui no Rio também, mas não naquela proporção e requinte. São hordas, blocos inteiros de Minnies, ou figuras solitárias, como a japonesa de quimono com quem encontrei na largada e nos quilômetros finais.  Muitos fantasiados correm mesmo! A concentração tem um clima de congraçamento, prévia do revellion que acontece algumas horas depois. E o tema de “Carruagens de fogo” na largada realmente emociona (claro que meia hora depois, quando você ainda não largou e ouve pela sexta vez, já acabou a emoção).

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Como já sabia dos perrengues, dei atenção às boas surpresas, e elas vieram. Eu que sou da rua, meu local de treino cotidiano, amei correr pela cidade de São Paulo, no coração dela, num trajeto totalmente novo para mim. Parafraseando a Calcanhotto, eu corro pelo mundo prestando atenção em ruas que eu não sei o nome, então foi bacana subir um viaduto imaginando qual seria, passar pela República, tentar descobrir qual era aquela igreja, cruzar com a Ipiranga e a São João. Outra coisa absolutamente incrível que eu nunca tinha vivido: gente na rua torcendo por você. Tem de todo tipo: solitários, famílias, um grupo da Gaviões da Fiel, criança que fica no meio fio e dá um high five quando você passa. Parece bobagem, mas não: é demais, dá um gás enorme, você tem um gostinho de queniano não por um dia, mas por minutos suficientes. (No Rio o povo nem liga e ainda te olha esquisito porque você atrapalhou a moça a caminho do mar). E como se não bastasse isso, na começo da interminável Brigadeiro ainda tive torcida pessoal: o auxílio mais que luxuoso da Daniela Abade que estava à minha espera com um sorriso largo, frutas frescas e um gatorade salvador. A Dani era uma conhecida da internet da categoria nunca-te-vi-sempre-gostei; foi imediatamente promovida por um conjunto de gestos gentilíssimos que comprovam que ela de perto é tão bacana quanto parece.

Ainda foi possível rever amigos (beijo, Zé!), curtir uma estadia mara e uma virada de ano deliciosa com as melhores companhias (obrigadão, Jô Elias!), rever e conhecer lugares sensacionais, como os Museus da Língua Portuguesa e do Futebol (show de bola!).  É aquilo, você sai só pra correr e volta com medalhas inesperadas. Mas essas são outras histórias, encerro aqui o relato da São Silvestre, da qual gostei muito e é possível que eu volte – neste ano ou na 95ª ou na 100ª, quem sabe?

Helê

Por um ano mais gentil

“2014 foi o ano mais difícil da minha vida” deve ser a frase mais lida nas redes sociais e ouvida nas mesas de bar neste início de ano.

Não acho legal fazer parte de um clichê, mas como posso definir esse ano doido e doído se não for para dizer que foi, também, o mais difícil da minha vida?

Não posso falar de 2014 sem começar dizendo que perdi minha mãe, meio de repente, e uma tia que sofria há décadas. E com isso vi minha avó querida sobreviver a duas filhas e acumular uma perda à outra em um intervalo de quatro meses. E vi essa mesma avó querida aguentar esse tranco e se manter como um exemplo de resiliência para a família e os amigos que convivem de perto com ela.

Atravessei o primeiro semestre entre visitas quase diárias ao hospital, com um breve intervalo para uma viagem de férias que já estava programada há tempos. Tive meu carro rebocado e briguei durante três meses com a (ex)operadora de celular que, depois de fazer uma cobrança errada e não me mandar a conta com o valor correto, teve a pachorra de cortar minha linha um dia após a missa de sétimo dia da minha mãe. Pensem em uma pessoa descontrolada.

No dia da abertura da Copa do Mundo, torci o pé. O filho foi para a colônia de férias e eu, para a casa do namorado, para ser paparicada e ficar um pouco alienada do mundo que celebrava gols enquanto eu chorava perdas.

Eles tomando rasteira e eu de pernas pro ar.

Passei dois meses desse ano (doido e doído, eu disse) desmontando o apartamento onde cresci com meus irmãos e onde mamãe viveu durante quase 40 anos. Um apartamento lindo, cheio de histórias e memórias, mas, mais pragmaticamente falando, cheio de coisas que tiveram que encontrar outros destinos, pois sua dona já não está mais aqui para usá-las. Foram muitas e muitas viagens ao asilo da igreja, com o carro cheio; foram telefonemas para a Comlurb retirar entulho; foram tentativas de venda de móveis maravilhosos – só uma deu certo, e as outras viraram presentes para pessoas queridas.

Depois de esvaziar tudo, foi a hora de cuidar de encher de novo, com as minhas coisas e da minha irmã e de nossos filhos, porque agora vivemos na República dos Primos, naquela casa que já nos viu crescer e agora dá abrigo à nossa maturidade e a novas infâncias.

Esvaziei também o apartamento onde morei por mais de nove anos, que me acolheu quando me separei e que viu meu filho crescer. Embora a mudança tenha me trazido muitas coisas boas, inclusive me libertar do aluguel, foi com certa melancolia que vi novamente tudo vazio, do jeito que estava quando entrei lá pela primeira vez, com minha amiga Dedeia ao lado, e nos deparamos com aquele Pão de Açúcar tão óbvio e ululante abençoando meu recomeço.

ele chegou pequenino e saiu quase do tamanho da mamãe…

Essa foi minha casa durante nove anos…

…e essa, pela vida inteira.

Desisti de dar aulas, pelo menos por enquanto. Percebi que preciso de tempo para ficar em casa, descansar, quem sabe estudar um pouquinho. A aventura foi boa, mas é tempo de pausar.

2014 não foi fácil. Terminei o ano completamente diferente do que comecei, e acho que isso deve ser bom. Mas neste momento, olhando para este 2015 novinho que se apresenta, só peço que ele seja mais gentil comigo. Estou precisando.

-Monix-

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