Dia desses eu estava na cozinha realizando tarefas diversas, preparando ao mesmo tempo  o café da manhã e o almoço: tinha duas panelas no fogo, folhas de molho, descasca daqui, lava dali,  seca, corta,  tempera. Naquele modo  polvo em que a gente entra pra dar conta das coisas no tempo que não temos. E de repente, do nada, lembrei de mim mesma, criança, observando minha mãe na cozinha fazendo o mesmo. Lembrei de pensar: “Como é que ela sabe a hora certa de fazer cada uma dessas coisas?”  Acreditava piamente que os adultos aprendiam essas coisas difíceis  nas séries mais adiantadas ou na faculdade.

Foi uma recordação estranha,  me  atingiu  de um modo brusco e ao mesmo tempo muito nítido. Também foi inusitado lembrar não de um acontecimento, mas de um sentimento: a admiração diante da habilidade da minha mãe, em particular, e dos adultos em geral; a destreza deles para lidar com as coisas complexas da vida. Logo em seguida senti saudade desse tempo em que eu acreditava que, mais adiante, eu aprenderia tudo o que precisava para viver bem, era só questão de tempo. Ou esse adiante  está muito mais  longe do que pensava ou, suspeito, nunca chegará.

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Helê

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