Arquipélago

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Estou naquele hiato entre um livro e o próximo, um não-lugar entre mundos, sem conseguir desapegar completamente dos personagens e paisagens açorianos, habitantes do livro de Joel Neto. Tudo sobre esse “Arquipélago” foi sempre cercado de encanto, desde a alegria com que foi saudado pelos leitores até a maneira como chegou a mim, atravessando um oceano de amizade e continentes de carinho, em um momento tenso de naufrágio. Deve ser por isso que não consigo me despedir.

Foi um enamoramento gradual: primeiro, caí de amores pelos Açores. Logo tive ganas de correr para a internet atrás de fotos e informação, mas me contive para não atrapalhar o ritmo da leitura e para pintar minhas próprias aquarelas com as palavras do autor. Através delas conheci uma cultura rica, um povo singular: interiorano no meio do mar (quase um sertão no meio do Atlântico), ao mesmo tempo distante e familiar. Um lugar “descoberto”, como dizem que nós fomos, mas com registros mais antigos que os seus supostos descobridores, cheio de (con)tradições e camadas – de tempo, de história, de vida.

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Arquipélago” também possui o charme do português de Portugal, língua que é mãe da que praticamos por aqui, tão semelhante e diferente, com seu tom formal e melódico, as ênclises, mesóclises e próclises usadas sem pedantismo. E a poesia involuntária de expressões, construções e dos nomes – ah, os nomes! Só pode ser mágico um lugar que se chama Terra Chã (“que de chã não tem nada“). Ou Angra do Heroísmo. E, meu deus, como é possível viver em Dois Caminhos? A mim já bastava um para seguir…

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Mas não só de paisagem e poesia é composto o “Arquipélago”; para além das vistas panorâmicas há também cenas intimistas e closes, sobretudo de José Artur, com quem não me identifiquei de imediato, mas por quem torci nas páginas finais com a respiração suspensa. Esse homem que, na metade da vida, retorna a terra da infância em busca de algo que ainda não sabe exatamente o que é; muito duro consigo mesmo, tão capaz de amar quando incapaz de expressar esse sentimento, se parece muito com alguns que conheço. Às vezes tinha a impressão de estar lendo o diário de um homem maduro (ou amadurecendo); nesse aspecto, trata-se de um livro bastante masculino, e entendê-lo dessa forma o torna ainda mais interessante.

phpThumbAssim, Arquipélago é tudo isso: um romance intimista, uma trama de suspense e história, uma ode sincera aos Açores. Uma lente que se aproxima e se afasta com maestria, realizando o truque próprio da boa literatura: desloca o leitor de sua realidade, retira-o de sua zona (que é sempre de conforto) ao mesmo tempo em que faz com que se identifique com lugares em que nunca esteve e com pessoas que jamais encontrou ou encontrará.

Eu não conheço Joel Neto pessoalmente e talvez custe a encontrá-lo, dado que ele mora na Ilha Terceira, nos Açores, no meio do Atlântico Norte, enquanto eu me quedo aqui, bem ao sul do Equador, na mui leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. No entanto, eu tenho com esse moço uma dívida inestimável, posto que já me deu dois presentes valiosíssimos: um amigo e um livro. Agradecer publicamente por ambos é mesmo o mínimo que posso fazer: muito obrigada, Joel. Recebe meu abraço caloroso e carioca. E um beijo para o Pedro, esse amigo que você, sem saber, me trouxe d’além mar e permanece comigo, a despeito das latitudes, longitudes e das intempéries.

Helê

 

 

2 Respostas

  1. […] Arquipélago, África e A mulher do fim do mundo. Boyhood, Black-ish, Bataclã. Chico artista brasileiro e Costa Barros. Divertidamente. Encontro Mothern e Estudantes de São Paulo. Feminismo. Gracie & Frankie. Hello, Adele. Incêndios, com lord Cláudio. Je suis Charlie e Joel Rufino. Karina Kuschnir e seus desenhos. Lama, Love wins. Mitologia e Psicanálise, Museu da Língua Portuguesa. NBS, Niterói. Ó Menage no carnaval. #PrimeiroAssédio. Que corrida. Réveillon Chez Geide e Robin Williams, by Ceelo. Sábado no Valongo. The web we have to save (Traduzido aqui) e Treino 25km do Grumari ao Pepê. Ubatuba com as melhores companhias❤. Vamos fazer um escândalo, Viola Davis.  Xô Cunha! Zoológico com filhote. […]

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  2. […] o “Arquipélago” atravessando a Baía de Guanabara soava mais que adequado: era quase um complemento à leitura. […]

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