Escárnio

Eu não estou dando conta, gente. Tudo o que sei sobre o assassinato de cinco jovens negros e pobres, na tarde de sábado no Rio de Janeiro, sem nenhum motivo, foi em segunda mão, porque eu não aguento ler ou assistir a nada sobre o assunto sem me sentir numa queda vertiginosa num lugar onde só há dor e espanto. Falando com minha filha ontem, caí no choro na segunda frase, eu não consegui. Cinco rapazes negros assassinados na Avenida Martin Luther King. Cento e onze tiros, como 111 foram os mortos na chacina do Carandiru (“quase todos pretos, ou quase brancos – ninguém é cidadão”). Caiu em desuso a expressão ironia do destino: o que temos aqui é deboche, o escárnio do destino brasileiro, que repete seus horrores, com requintes de crueldade. Aterrador viver em um lugar onde cinco garotos são abatidos pela polícia e a família precisa explicar que eles não fizeram nada de errado. A mesma polícia que matou com um tiro de fuzil na cabeça um menino de 10 anos, cujos envolvidos não foram sequer indiciados porque o inquérito concluiu que agiram em legítima defesa. Polícia chefiada por um governador que declara que vai cobrar apuração dos fatos, quando ele deveria ir à Costa Barros e pedir desculpas à família e à comunidade, como fazem governantes que tem o mínimo de dignidade. Eu não dou e não quero dar conta disso, gente.

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(Christophe Simon/AFP)

 

Helê

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