Vizinhança

Sam Waterston, Lily Tomlin, Jane Fonda and Martin Sheen in the Netflix Original Series "Grace and Frankie". Photo by Melissa Moseley for Netflix.Ê

Photo by Melissa Moseley for Netflix.

 

Assisti Gracie and Frankie e gostei imenso, de ficar economizando episódio porque são curtos e poucos. Quando aconteceu o inevitável, a série acabou, pensei em escrever sobre, mas é difícil perceber a relevância de um assunto nestes tempos on demand; achei que todo mundo já tinha visto e que havia perdido o bonde dessa história*. Aí a Luciana Nepomuceno fez um post citando a série, fui comentar e quase soltei um post sem querer – às vezes tenho essa incontinência, gente, dsclp. Então vim aqui dizer que o quanto eu achei bacana a série, a começar pelo elenco. A oposição entre um estilo de vida mais careta e outro alternativo, o choque de dois casamentos desfeitos em função de um amor homossexual, tudo isso entre personagens idosos, poderia facilmente descambar para algo estereotipado e histérico não fossem as interpretações de Sam Waterston, Lily Tomlin, Jane Fonda e Martin Sheen.

Percebo agora que, desde que passei a morar na Casa dos Quarenta, tenho olhado com especial interesse para a vizinhança e me interessado por obras com atores e/ou temáticas mais velhos. Gracie e Frankie junta-se a O exótico Hotel Marigot, E se vivêssemos todos juntos, O Quarteto, para citar apenas alguns dos bons que vi nos últimos anos e que me encantaram. Na série da Netflix me agradou particularmente esse humor sutil que, em geral, provoca apenas um sorriso cúmplice mas nem por isso é menos restaurador que uma franca  gargalhada.  Nada dos risos ritmados e excessivos da maioria das séries; aos 70 anos ninguém mais ri tanto em meia hora como em “Friends” (suspeito quem nem eles naquele tempo). Em Gracie & Frankie o humor frequentemente roça no drama, em maior ou menor intensidade  – como sói acontecer na vida real, onde esses dois são mais parceiros que rivais.

Como eu disse no post da Lu, a série tem um humor que comove, um amor que diverte e uma objetiva falta de tempo com o que não é necessário. Porque não há tempo (nem na vida nem na série) para se demorar demais na dor; ao fim e ao cabo trata-se de uma comédia (na série como na vida). O que alguns consideraram falta de timing de comédia eu considerei perfeitamente identificável e divertido, embora, claro, agridoce às vezes. Fico particularmente tocada com a situação de Frankie e Sol, que vivem o fim de um casamento mas não do amor – como terminar algo que não acabou? Há ainda uma série de outras questões importantes referentes ao envelhecimento tratadas com graça e carinho, sem que a idade seja algo a se combater (como prometem fazer alguns cremes) ou que exija piedade (como imaginam certos jovens). E não se pode perder de vista que, embora  toda a ação se desencadeie pela vontade dos homens, são as mulheres as protagonistas: duas velhas mulheres obrigadas a lidar com novos desafios no fim da vida. (Let’s face it, gente, aos 70 anos certos eufemismos não cabem).

Para quem ainda não viu, #ficaadica. Para quem, como eu, está à espera da segunda temporada, bora trocar figurinhas aqui ? Diz pra mim o que você achou.

Helê

 

*Adoro esse regime netiflixiano, nada como criar suas próprias maratonas e não ser incomodado pelo trivago ou pelo curso de zumba. Mas ainda não me acostumei com a perda da experiência coletiva de assistir , comentar no dia seguinte: “Viu o capítulo de ontem?!“. Difícil encontrar alguém que esteja no mesmo ponto que você, então forçosamente o grau de empolgação, encantamento ou decepção difere do seu. Talvez um dos muitos encantos de Games of Thrones seja exatamente nos devolver esse sentido de público, de coletivo. São apenas dez capítulos uma vez por ano; durante 10 semanas o mundo gira em torno de Westeros. E o mundo parece  menos desagradável quando se assemelha a uma aldeia. 

8 Respostas

  1. Eu sempre tive ternura pelo envelhecimento. Até uma certa pressa. E um enorme incômodo com o silêncio sobre. Como se a vida fosse menos vida. Essa série (e os maravilhosos filmes que você citou) me encantam por causa desse olhar generoso mas não condescendente (tem Vicious, também). Curti muito que você apontou uma coisa tão relevante: o jeito de lidar com o tempo. A finitude, essa amiga íntima que insistimos, como sociedade, em ignorar. Eu gostei muito de vários momentos da temporada, o dia do terremoto, a relação com os filhos e especialmente (como eu falei lá) o finzinho da temporada, tão agridoce o Robert fazendo os votos e o Sol voltando pra casa… adorei seu post e deu vontade de rever🙂

    Lu, eu te agradeço porque o teu post foi o motor deste, a motivação para por em curso mente e texto – escrever é exercício, e às vezes precisamos de estímulo para os dois. Sempre que vejo essas obras termino pensando em quanto essas pessoas e temáticas estão ausentes das demais, e me dou conta que o “macho adulto branco sempre no comando” que o Caetano cantou também é jovem, o puto. Não é fácil – eu me policiei ao escrever para fugir termos condescedentes, como terceira idade – mas é preciso, justo e seria muito inteligente e útil para todos nós, não é? Obrigada pela dica de Vicious (vou procurar!), pela inspiração e pelo comentário!
    Beijoca,
    Helê

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  2. Onde tá o botão de curtir o texto e o comentário?
    🙂 Obrigada, querido.
    Beijim,
    Helê

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  3. Helena, acho que , como já sou sua vizinha da frente (ou seja, já não estou nos 40) e me avizinho ainda mais que você dos 70, essa série e os filmes citados me agradaram e emocionaram muito. Perceber que ainda restam questões a resolver e buscas individuais aos 70/ 80… é dar um gás a mais nas buscas que fazemos hoje e reconhecer que não sabíamos nada, nada, nada aos 30. Só me frustrei com o final da série, pois queria continuar acompanhando, principalmente as meninas… atrizes fabulosas. O único senão (questão de gosto) ficou por conta da quantidade de botox ou sei lá que plástica cirúrgica das duas, mas principalmente da Lily Tomlin, que eu achava muito mais bonita antes… Amei seu post…

    Obrigada, querida. Sim, Glória, aos 30 éramos uma legião de Jons Snows, não sabíamos de nada🙂. Agora, além de lidar com nosso envelhecimento lidamos com o processo acontecendo com pessoas próximas e queridas, fica cada vez mais difícil evitar o tema. E esses filmes/séries noa ajudam a ver que não é preciso; ao contrário, envelhecer talvez não seja necessariamente doloroso e pode ser bem divertido até.
    Aguenta firme que a segunda temporada vem aí, já está garantida!
    Beijo; obrigada pelo coemntário.
    Helê

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  4. Também fiquei curioso com essa série, irei certamente ver em breve.

    Há uma outra que aborda a temática LGBT na velhice, a britânica “Vicious” (com Derek Jacobi e Ian McKellen).

    Escrevi sobre a mesma aqui: http://escrevergay.com/2015/06/17/vicious-ou-a-idade-da-inocencia/

    =)

    Oi, Pedro, seja bem-vindo e fique à vontade, a casa é nossa.
    Depois que assistir me conta o que achou.
    A Luciana também indicou ‘Vicious’ no comentário dela. Vou procurar, adoro Sir McKellen.
    Obrigada e volte sempre.
    Aquele Abraço,
    Helê

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  5. Helê, sempre leio os seus textos e gosto demais. Raramente comento.Li esse texto na Fal. Não conheço a série e vou ver. Muito obrigada pela dica.Vou compartilhar.

    Obrigada você pela visita e pelo comentário, Tereza! Volte sempre; a casa é nossa, viu?
    Aquele Abraço,
    Helê

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  6. Helê, obrigada, a dica foi ótima! Adorei a série! Tereza.

    Olha que bacana, Tereza foi rápida no gatilho e já conferiu! Fico feliz que tenha correspondido à expectativa que eu criei.
    Aquele Abraço, volte sempre!
    Helê

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  7. Obrigada, Helê . Estou sempre por aqui🙂

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  8. […] e Costa Barros. Divertidamente. Encontro Mothern e Estudantes de São Paulo. Feminismo. Gracie & Frankie. Hello, Adele. Incêndios, com lord Cláudio. Je suis Charlie e Joel Rufino. Karina Kuschnir e […]

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