De Amy a Kesha

e4328e152cc07582c39cd63cb087bddbAproveitando um ânimo kinda blues, finalmente assisti “Amy”. Sabia que depois sofreria o pior tipo de saudade, a incurável. Mesmo assim, sempre vale a pena ver Amy Winehouse, essa luz singular que se autoconsumiu. Uma angústia extra me acompanhou durante o filme, porque logo no início, aos 15, 20 minutos de documentário, eu tive a impressão que seu fim era inescapável. Como se faltasse algo desde sempre, algo na estrutura dela, que a fazia incapaz de suportar o próprio dom; sua fragilidade era do tamanho do seu talento. Emocionei-me algumas vezes, entre elas com Tony Benett, esse gentleman, e sua frase lapidar: “Life teaches you how to live it — if you live long enough”*.

Mas se Amy não viveu o bastante para aprender a lidar com suas habilidades e limitações, o fato de ter se tornado uma pop star foi crucial para isso. O documentário de Asif Kapadia, premiado com o Oscar, faz claras referências ao caráter duvidoso do pai de Amy e à influência do marido. Mas eu fiquei chocada com o episódio em que ela foi colocada desacordada em um avião para fazer um show que ela não queria. Como se faz uma coisa dessas com uma pessoa? Quando foi que a gente concordou que um contrato estava acima da vontade ou do bem-estar do contratado? E por que o papel de agentes, gravadora e assessores tem pouca ou nenhuma atenção quando se discute as razões dessa morte escandalosamente precoce?

Enquanto a imprensa dedicar amplos espaços a coincidências elevadas à categoria de maldição, enquanto insistirmos em apontar o dedo para familiares e para a própria Amy, vamos manter a conversa em um nível facebook, raso e pleno de obviedades repetitivas. A discussão deve ir mais fundo nas entranhas do showbizz e nos expedientes que ele usa para exaurir uma alma como a de Amy, depois de lucrar bastante. Nesse momento em que uma cantora vai a um tribunal solicitar a liberação de um contrato acusando seu produtor de variados assédios** – e tem seu pedido negado – precisamos olhar para essa engrenagem com menos deslumbre e um olhar mais crítico. Precisamos falar sobre Kesha. Amy nós precisamos ouvir, sempre.

 

Helê

*A vida ensina a viver, se você viver o suficiente
** Vale destacar que a cantora recebeu apoio de diversos artistas, alguns com os quais a única afinidade que ela possui é pertencer à mesma categoria. O que significa, a meu ver, que ainda que se possa contestar as acusações, elas são absolutamente plausíveis e, talvez, assustadoramente comuns.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: