Corrrtem-lhe a cabeça!

Na animação Alice no País das Maravilhas, a Rainha de Copas é uma personagem desequilibrada (hoje diríamos que é “surtada”), que resolve as divergências de um modo simples e radical: “corrrtem-lhe a cabeça!” grita ela, eliminando o racional de qualquer oposição que se lhe faça.

rainha-de-copas

Aqui no Brasil está em andamento uma (oportuna, é bom que se diga) decapitação em massa, liderada pela Operação Lava Jato da Polícia Federal, que tem seu principal mérito no escancaramento de práticas escusas que envolvem políticos e suas campanhas, a gestão irresponsável de empresas estatais e um modo de fazer política que a sociedade brasileira tem expressado que não aceita mais. (Embora eu aplique à política o que Luiz Eduardo Soares dizia sobre as polícias brasileiras: aquilo que apontamos como desvio na verdade é exatamente o que atende aos anseios dos grupos dominantes. Mas isso é outra história.)

O problema é que não basta punir os indivíduos por causa de corrupção. Eu diria até que meio que não adianta nada punir os indivíduos.

A mim me parece que estamos perdendo o foco da discussão. O que temos que apreender dessas notícias escabrosas é que é assim que se faz política no Brasil desde 1500. Por isso não me agrada a indignação que põe a corrupção como o problema número 1 do país. O ponto do debate deveria ser outro. (Acho que a esquerda errou quando assumiu o papel de guardiã da ética, porque era insustentável; e errou de novo quando optou pelo tal “pragmatismo político” para justificar alianças que permitissem a governabilidade. É um beco sem saída essa dualidade ética X governabilidade.)

A discussão deveria ser outra, e deveria obrigatoriamente passar pelo campo da política partidária. Sim, os partidos que temos são uma vergonha. Mas ainda não descobriram nenhuma maneira alternativa de se estruturar uma democracia nos padrões modernos/contemporâneos. Na Itália, a Operação Mãos Limpas resultou numa figura como o Berlusconi. Aqui nos ronda o fantasma de Jair Bolsonaro, que por acaso está bem vivo. Esse tipo de “faxina ética” que atinge todos os partidos traz esse efeito colateral a reboque: um vácuo de poder.

Vejam que meu problema não é nem com os eventuais erros processuais da Lava Jato. É com suas repercussões políticas. Cria-se um cenário de descrença generalizada na classe política e abre-se espaço para a ascensão de pessoas sem nenhum vínculo com uma base de apoio. E já vimos que sem base de apoio não se governa o Brasil (oi Getúlio; oi Jango; oi Collor; oi Dilma).

O que defendo não é o fim da Operação Lava Jato. As investigações têm que continuar. Só quero colocar aqui um certo senso crítico – afinal, para apontar soluções temos os engenheiros e todo o pessoal das Ciências Exatas. Nós de Humanas fazemos miçangas e apontamos problemas.🙂

Então, como diria o grande filósofo Abelardo Barbosa, eu vim para confundir.

Não acho que se tenha que suspender investigação nenhuma. Que tudo seja apurado e os culpados, punidos. Mas: 1) temos que prestar muita atenção aos métodos empregados, porque juízes tendem a achar que têm o rei na barriga e 2) sempre, sempre, relativizemos o que está sendo descoberto, à luz da realidade política brasileira. Há 500 anos funcionamos na base dos acordos. Não adianta agora fulanizar a questão.

Se fosse para sugerir soluções (mas veja bem que não sou dessas), diria que seria muito mais proveitoso para a sociedade brasileira discutir mudanças na estrutura que sustenta esse estado de coisas. Enquanto houver esse voto proporcional do jeito que está, por exemplo, o Congresso não mudará. A quantidade absurda de partidos inviabiliza qualquer maioria que não seja baseada em conchavos. A possibilidade de alianças em que o chefe do executivo é de um partido e seu vice pode ser de outro, ao contrário de favorecer as coalizões, já se provou que cria um ambiente propício a conspirações. E nem vamos falar sobre a vergonha que são os financiamentos de campanhas.

Enquanto esse esquema permanecer, a caça às bruxas não terminará. Vão prender todo mundo e não vai sobrar um para contar a história.

-Monix-

 

 

3 Respostas

  1. “Se fosse para sugerir soluções (mas veja bem que não sou dessas), diria que seria muito mais proveitoso para a sociedade brasileira discutir mudanças na estrutura que sustenta esse estado de coisas.” – ô, flor, aí é que o bicho pega, né? quem quer fazer isso? quem? quem? quén? quen quen…

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  2. Apoiado! Fim do financiamento privado de campanha, da coligação partidária e do voto proporcional já seria um bom começo para sanear de verdade a política nacional. O resto é firula, conversa mole, ignorância política, ódio partidário e golpismo.

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  3. Fim do financiamento privado de campanha, ok.
    Fim da coligação partidária e fim do voto proporcional eu não entendi. Como é isso?

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