Mistérios

Fico intrigada com a maneira como funciona a memória, essa biblioteca caleidoscópica autogerida, que segue uma lógica obscura e realiza sinapses surpreendentes. Não entendo como ela opera (talvez não queria saber de fato: descobrir o truque não tem prazer nem próximo do que vê-lo acontecer). Há pouco me lembrei de ‘Beijo Partido’, bela canção do Toninho Horta. E lembrei de uma história que meu irmão me contou, há muitos e muitos anos, de um ex-viciado que teve uma epifania sobre o vício ouvindo essa canção. Entre os versos “eu não gosto de quem me arruína em pedaços” e “onde estará a rainha que a lucidez escondeu?” uma luz acendeu na consciência do cidadão, que então decidiu se tratar. Se você me perguntar a senha do Gmail, que eu uso todo dia, eu vou gaguejar e errar. Mas essa historieta, de alguém que eu não sei nem quem é, que impressionou meu irmão há tempos atrás e que ele comentou comigo num dia qualquer, grudou em alguma esquina do meu cérebro e permaneceu. Nesse mesmo sótão onde não há faxina que recupere a ficha da moça que me cumprimenta no facebook, evocando lembranças que deveríamos partilhar mas que eu, vergonhosamente, desconheço.

brainNa verdade, a memória (a minha eu apelidei carinhosamente de Danada) é um dos muitos engenhos misteriosos do corpo humano. Tem, por exemplo, o cérebro, esse assombroso maquinário. No ótimo documentário “My beautiful broken brain”, disponível na Netflix, Lotje Sodderland, uma mulher de 34 anos, registra sua reabilitação após sofrer um grave derrame. Apesar da situação trágica, o doc escapa com brilho da pieguice e dos clichês motivacionais. Concentra-se em narrar a incrível tarefa de alguém que busca consertar algo defeituoso tendo como instrumento esse mesmo equipamento avariado. Em dado momento, Sodeerland recupera a capacidade de escrever, mas continua sem conseguir ler, o que deu um mini curto-circuito na minha cabeça: achava que as duas habilidades estavam ligadas. Na verdade, são organizadas e controladas por partes diferentes da mente. Fascinante: o mecanismo, as nuances, a capacidade de recuperação, as divisões, funções, tudo distribuído em pouco mais de 1 kg de massa, tão poderoso quando vulnerável.

Tem também o coração, esse músculo involuntário e suas sofisticadas estratégias de sobrevivência. Aprendi outro dia o porquê dos enfartes serem mais perigosos e fatais em pessoas mais jovens. Achava que isso era daquelas coisas que o senso comum afirmar sem ter propriamente fundamento pra isso, mas a amiga médica explicou que procede. Acontece que o coração mais velho torna-se mais capilarizado; com o tempo, o órgão cria novas ramificações, vias secundárias, de modo que, face a uma obstrução, o comprometimento não é tão severo porque o sangue encontra outros caminhos que não existiam no original de fábrica; há ligações imprevistas, gambiarras, novos escapes (entro em beco, saio em beco/há um recurso, Madalena). B. me explicava didática e cientificamente, e eu a escutava deslumbrada com o lirismo e a sabedoria de tudo isso. Fiquei encantada com essa habilidade cardíaca, comovida feito o diabo com essa anatomia poética, com essa inteligência sensível obtida com a experiência (e um pouco aliviada, claro, porque afinal eu já tenho um coração de meia-idade).

Escapei da medicina, que ‘acometeu’ alguns na minha família, mas não do fascínio pelo corpo humano, mas me distraio com beleza  e encanto onde outros só vêem estruturas e sistemas. Aquilo que classificam como ciência e que rescende à razão, química e cálculos, eu só consigo compreender como poesia, da ordem dos mistérios.

travis
(Travis Bedel)

Helê

8 Respostas

  1. Coisa linda, Helê….. eu, por conta de tia Sônia e do tio Alzha ( já contei no BSC), ando bastante mergulhada nisso aí. O que lembra. Como lembra. Há um atalho? Dá pra recuperar por outro caminho?
    Vou ver o doc.
    Beijo pra vc.

    Veja, Rê, eu achei muuuito bacana. E no netflix tem também o “Alive inside”, não sei se você já viu. Achei uma porrada, mas das boas🙂
    Beijoca,
    Helê

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  2. se a memória permitisse escolheria esta canção – beijo partido – como uma das minhas preferidas. e o disco minas do milton nascimento deveria entrar em qualquer lista séria de “os melhores de todos os tempos”.

    Menino, cê sabe que eu busquei a canção lá no espotifai enquanto escrevia o post, acabei deixando rolar o ‘disco’ e pensei a mesma coisa, ‘nossa, como é bom esse disco do Milton!’. E Beijo Partido é, de fato, um clássico.
    Beijos pra você, mylord.
    Helê

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  3. tenho lido muita coisa sobre o cérebro, principalmente por conta do meu filho epilético e bipolar. e também me encanto, como você, com a perfeição das sinapses e das multiplas ramificações neuronais, que se multiplicam e se adaptam conforme as necessidades.
    o corpo todo é meio mágico pra mim, se você retirar um pedaço do fígado de um doador e implantar no corpo de outra pessoa, ele cresce e se acomoda, em peso e forma ao novo corpo, conforme o receptor precisa.
    fico fascinada, como você.
    adorei esse texto…

    Sim, sim, Beth, é isso, um fascínio quase infantil com a inteligência do corpo, como se ele soubesse o que fazer, algumas vezes em momentos cruciais. Se tem Deus mesmo, o cara tá de parabéns.😀
    Beijoca,
    Helê

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  4. As sinapses e ligações na minha caixola já demoram alguns segundos a mais. É como se dessem um sinal telefônico de ocupado. Eu insisto na ligação e, geralmente, vem o prazer de lembrar um nome, uma imagem, um cheiro… Mme. Celetiva (assim mesmo, em deferência ao sobrenome de quem a carrega) sempre foi mestra em guardar somente o que mais interessava. Hoje me causa calças justas na hora que me chamam pelo nome na rua e não consigo imaginar de quem se trata. Fica apenas um sentimento reconfortante: 53 com carinha de 20 e poucos!!!
    P.S.: você tá escrita em bold na lista da madame!

    Adorei Madame, já inclusive visualizei essa gorda senhora com sotaque francês um tanto fake e um ar de elegância decadente – mas sempre elegância! A minha, como já disse aqui, é “uma velha louca, que joga comida fora e guarda trapos coloridos” – mas que amor eu tenho a esses trapos! Encontrá-los é, como você descreveu, um prazer. Reencontrar você será outro maior; aguarde que retomei os bordados!
    Beijoca!
    Helê

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  5. Deixa de modéstia, Helê. Até onde me lembro (rá!), sua memória sempre foi e sempre será excelente!

    Será mesmo, Chris? Mas a questão é menos se funciona e mais como, que gatilhos acionam certas ramificações, e que emoções dificultam o acesso a outras. E sobre a memória, ela guarda ainda um paradoxo interessantíssimo: nós precisamos esquecer. Ninguém suportaria lembrar de tudo. E é nesse momento do descarte que começa a confusão, hahaha!
    Bom ver você por aqui novamente, senti falta.
    Beijo,
    Helê

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  6. Gosto demais dos seus textos, Helê.Eu também fico fascinada com os mistérios e a poesia do corpo humano.

    Ô, Tereza, obrigada! Que bom que partilhamos esse olhar🙂
    Beijoca,
    Helê

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  7. Mto bom, Helê! O corpo humano e seu funcionamento tb me fascinam! O Cérbero então, tem mil e uma nuanças e histórias incríveis…
    E as memórias realmente são curiosas! Uma amiga de faculdade sempre reclamava q nunca lembrava da matéria dada na aula, mas esquecia uma história inusitada q o professor contava… Rsrsrs
    Adorei!
    Bjs

    Que bom que você curtiu, Branca. Se puder, assista ao documentário que cito, é um prato cheio para quem tem essa curiosidade e admiração por essa máquina incrível.
    Beijo, obrigada por comentar.
    Helê

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  8. Oi, Helê!
    Retribuindo a visita… E viva a CT!!!
    Ai, que me identifiquei muito com esses seus pensamentos em relação à memória, ao coração e até ao escape da medicina… (risos) Isso significa que vou voltar!
    E vou procurar (além do “A mae eterna”) o doc na Netflix também!
    Beijo!!!

    Oi, Bel!
    Muito obrigada pela visita e pelo comentário!
    Se quiser, depois me conte o que achou das dicas.
    Fique à vontade e volte sempre – a casa é nossa!
    Beijo,
    Helê

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