Terapêutico 

Ao contrário da maioria das pessoas, eu gosto de mudar de casa. Fico tensa com os trâmites legais que envolvem contrato – assinar e encerrar, entregar chaves, fazer vistoria, essas coisas de adulto que não se pode delegar e não tenho com quem dividir. Mas o processo em si de separar, organizar, empacotar, desempacotar e reorganizar eu gosto muito. Acho que é uma espécie de revisão, como passar a vida a limpo, de certa forma. Eu sou muito apegada às minhas coisas, por inúmeras razões. Porque as associo a lembranças, pessoas, sentimentos. Porque não gosto de me precipitar (“Vai que o outro pé dessa meia tá em algum lugar?”) Porque gosto de segundas chances (“Hoje não caiu bem essa blusa, mas quem sabe se usar com aquela saia?”) Porque sou otimista (“Ah, claro que vou ler esse livro nos próximos meses…”). Porque sou preguiçosa e esquecida (“Meu deus, ainda tenho esse cartaz do Harry Potter!”). Mas ao mesmo tempo que gosto de guardar, acho libertador jogar fora, desapegar. E quanto mais faço mais tenho vontade de fazer. Na verdade  percebo que estou numa espécie de ‘mode  mudança’ desde que troquei de endereço, que alcançou outras áreas – ando deletando pastas e arquivos no computador, saindo de newletters inúteis, olhando quase tudo com uma interrogação ou várias, em sequência.

É impressionante a quantidade de coisas que não resistiram ao mais superficial questionamento, o simples  “Pra quê eu tenho isso?” Muitas que sobreviveram a essa primeira inquirição estancaram na segunda etapa, a do “Tá, mas, eu uso?” E lá se foram mais tranqueiras que habitaram gavetas e prateleiras por meses ou anos. Nada escapa ao meu crivo, dos tapuérs aos brincos, das fronhas aos cds; o que passou no momento em que entrou na caixa sofre novo exame ao sair. Refino mais minha inquisição até a fronteira final do pertencimento, que é perguntar se eu gosto de ou quero ter aquilo. Porque acontece de algo ter função, sentido ou significado, e você não querer mais ou não gostar. E essas são razões tão (ou mais) válidas que as anteriores.

Talvez esse processo não tenha o mesmo sabor para alguém que já mudou dezenas de vezes, ou para os muito organizados, que acumulam pouco e desapegam sem pestanejar. Para mim é uma oportunidade única porque sei este “mode mudança” em algum momento vai arrefecer e vou voltar ao normal – apego, distração, acúmulo. Mesmo com as faxinas sazonais, nenhuma delas é tão profunda ou atinge partes tão amplas da vida quanto uma mudança de domicílio. Essa minha tem ainda um diferencial: não acompanha nenhum outro grande evento pessoal. Na vida adulta, minha primeira mudança foi quando saí de casa para morar sozinha; depois mudei para casar e,  mais tarde, quando me separei. Em cada um desses momentos mudar de casa era consequência de outras decisões e acontecimentos. Desta vez mudar foi uma escolha, o acontecimento principal. O que justifica – assim espero –  que eu esteja escrevendo novamente sobre isso, oferecendo minha versão Marie Kondo* de arrumação mesmo que ninguém tenha pedido. E porque na falta de terapia (e que falta ela faz!), escrever ajuda um bocado a se encontrar em meio à mudança.

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(Da exposição “American Nostalgia: Contemporary Artists and Illustrators Reinterpret the Traditional Themes of Norman Rockwell”, de 2011)

Helê

 

*Marie Kondo é autora do best-seller “A Mágica da Arrumação”, que eu não li mas vi a resenha da Jout Jout .

9 Respostas

  1. pode até ser que o livro seja bom,mas o seu post é óoootimo.
    Preciso entrar neste mode – urgente – independente de mudança.
    A questão que meu ímpeto dura apenas horas (minutos?). e com isso não dá tempo para jogar muiita coisa fora.

    Obrigada, Claudim.
    Não sei como provocar esse ímpeto. Mas aproveite os rompantes, mesmo curtos. Vai que de pouco em pouco você anima?
    Beijo,
    H.

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  2. “Essas coisas de adulto”…. como sofro com elas! Estou a caminho do Detran. Buá.
    Boa sorte na sua faxina.
    Beijo, Monix

    Espero que tenha dado tudo certo, Sócia!
    Beijoca!
    H.

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  3. Não me desagrada a ideia de mudança. Já a prática é bem diferente. Não gosto do processo, não gosto de ter que escolher e me livrar de objectos, mesmo que sejam bobagens sem serventia. Me mudaria, sim, para uma casa onde me fosse permitido uma divisão só minha onde o acúmulo de livros e papeis vários, pedras e minerais diversos, fotografias e câmeras velhas. Sem limite e sem ser olhado como “juntar lixo”…

    Pedro, um acumulador reprimido, quem diria…😀
    Bom te ver por aqui; beijo!
    Helê

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  4. Não me canso de te ler 😊

    Ô, querida! Obrigada!
    Beijoca,
    Helê

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  5. Eu precisava ler isso hoje. E muito me identifico. Tô entrando no processo. Na caixinha de output aparecerão muitas peças ótimas pra futuros bazares😉

    Tem uma bolsa para bazar monstruosa aqui em casa, Napaula, resultado desse processo todo.
    Aguardando você entrar na vibe, Sis.
    Bj,
    Helê

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  6. Boa sorte em seu novo cantinho, lindona!

    Muito obrigada, Rita!
    Beijo grande,
    Helê

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  7. Não é fácil, cada vez que eu me proponho desfazer das tranqueiras acumuladas passo por um processo doloroso….vejo significado ou utilidade nas coisas mais improváveis! Mas se você conseguiu , acho que também vou tentar… E que sua mudança para a casa nova seja uma aventura feliz!

    Obrigada, Isaura, você sempre com palavras encorajadoras e ternas.
    Olha, no meu caso houve (há) alguma dor também, inevitável. Mas concentra no que você pode ganhar, nas (re)descobertas, na leveza, pode ser até divertido. E não esquece: pode ter utilidade e significado e não ser bom pra você. Coragem, querida!
    Beijo,
    Helê

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  8. Que texto mais gostoso de ler! Amei!

    Obrigada , Pricila; volte sempre. A casa é nossa😉
    Helê

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