O presente e seus desafios

No celular tento digitar com os dedões porque a adolescente me explicou que de outro modo “é como faz o pessoal da sua idade”. Nenhum problema com esse pessoal, que é o meu, mas she’s gotta a point, faz mais sentido e é até mais confortável, tenta só pra ver. Provavelmente vai acarretar uma nova L.E.R.,  uma -ite digital,  mas vem no combo novas tecnologias /possibilidades/doenças também; paciência. Não é isso que me incomoda. Desagrada-me o fim da privacidade, ou por outra, a sua atual indefinição e fluidez. E não é só da minha que falo, é também a do outro.

Entrei num táxi uma vez onde o motorista participava de uma espécie de chat oral on line: rolava uma animada conversa com mais duas ou três pessoas pelo auto-falante do celular, nem sei que aplicativo eles usavam. Só sei que fui da Tijuca até a Gamboa ouvindo um papo animado sobre religião, mulheres em geral e mulheres da zona sul em particular (!) que me constrangeu bastante. Nem havia nada de picante ou impróprio, mas era uma conversa da qual eu não pedi para participar e fui incluída à revelia. Quase pedi pra descer me desculpando por incomodar. Na sala de espera de um consultório escutei o áudio em que a menina dizia ao rapaz: “Sinceramente, eu esperava mais de você”.  Tipo de coisa que desperta infinitas possibilidades de interpretação na minha mente zombeteira, e ainda me exige esforço e compenetração para não emitir uma opinião técnica, tipo, “Da próxima vez faz assim…”. E as pessoas que falam no celular no ônibus como se estivessem em casa, completamente à vontade? Eu morro de vergonha, seja qual for o teor da conversa; apenas porque eu não deveria e nem queria estar ouvindo aquilo.

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Em 1998 eu escrevi uma tese (não dorme, péra) com o título “Luis Fernando Veríssimo. O humor entre o público e o privado”. A única coisa que permanece com contornos definidos é o Veríssimo (Graças a deus!). Escrevi algo que em menos de 20 anos ficou obsoleto. Diz aí você, o que é uma coisa e outra, público e privado ? O Veríssimo, ok, é meu rei; meu pastor e nada me faltará.

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Um dos maiores desafios da atualidade: pegar o celular para fazer algo – uma das 73 coisas que você pode fazer com ele, além de telefonar –, e fazer. Porque esse potente microcomputador portátil também funciona como sumidouro, alçapão, armadilha: você vai, sei lá, procurar um número de telefone,  e de repente está curtindo uma foto do seu amigo no aniversário da mãe dele, no Instagram. Que merece, aquela fofa da D. Alzira –  mas como é mesmo que eu vim parar aqui? Culpa das notificações e avisos, sem os quais a gente não daria conta de saber o que se passa enquanto a gente não está olhando para a telinha. Mas que exigem determinação monástica, concentração zen-budista e força de vontade religiosa para que a gente apenas procure aquele número que buscava quando pegou o celular. Claro que o mesmo acontece no computador (eu vivo me perdendo entre abas e janelas), mas o <ler com sotaque português>telemóvel<fim do sotaque>, como dizem os primos, tornou tudo mais crítico,  colocando essas armas de distração em massa  no nosso bolso (ou bolsas). As definições de transtorno de atenção precisam ser atualizadas – assim como as de educação e etiqueta.

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Entre apocalíticos e integrados eu sempre pendi para os segundos, desde o tempo em que essa distinção fazia sentido e era ensinada nas faculdades de jornalismo, na Idade Média. Não acho que o problema seja o celular, a coisa em si, ou mesmo a tecnologia que a sustenta. Acho que o mal é o que sai da boca do homem, fecho com a bíblia nisso aí. Trata-se apenas de observações sobre um mundo que muda mais rápido que eu achava capaz. Não me entendam mal, nem me considerem uma velha rabugenta. Contra a rabugice lutarei sempre; da velhice finjo que não gosto, mas tô tentando fazer amizade.

Helê

Imagem daqui.

6 Respostas

  1. Muito boa reflexão sobre tema tão atual. Estamos vivendo um admirável mundo novo, com certeza.

    Sim, estamos, Tina. E pra mim o mais assustador é que não tem cartilha, manual. A gente segue enfrentando e inventando a melhor maneira de estar nele.
    Beijo, obrigada por comentar.
    Helê

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  2. Sofro com as mesmas ansiedades. O “attention span” fica em pedacinhos. Hora, talvez, de tentar ser criativo e, com humor, aceitar a adaptação da expressão “saia justa” para “luva justa”. O que meus dedos não teclam, o coração não sente. rsrsrs.

    Hahaha, luva justa é ótimo, Serginho! Sim, sofremos, mas jamais deixaremos de usar a criatividade e o humor, por favor. (O danado do uordiprez te colocou no spam, mas já avisei pra não te tratar assim, humpf!)
    Beijoca, amore,
    Helê

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  3. Como sempre, inteligente, divertido, preciso. E, pra variar, muito me identifiquei. Menos a parte de escrever com os polegares. Já tentei, passo.

    Obrigada, Ana.
    Sobre os polegares: ainda não tenho a destreza adolescente, mas melhorei muito😀 .
    Beijoca,
    Helê

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  4. Há dias vi alguém usando frenéticamente um Nokia velhinho, daqueles que dá para telefonar e pouco mais. E me deu uma vontade de usar um também, talvez daqueles com tampa deslizante que usavam no “Matrix”, sei lá… (Falo de um telemóvel, sim, com sotaque Português…)

    Um desejo de ser vintage?🙂 Mas veja, se for para usar freneticamente ainda continuamos a usar da maneira como usamos os espertofones, como diz uma amiga. Ainda me encantam mais os benefícios que os prejuízos; a angústia maior, minha é perder o controle, a sensação de ser guiado pela maquininha e não o contrário. Mas quem disse que a gente controla alguma coisa, não é mesmo?
    Beijoca, Pedro; bom te ver por aqui.
    PS: adoro sotaques.
    Helê

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  5. Gostei demais.

    Obrigada, Tereza. Volte sempre, comente mais – se quiser😉 .
    Beijo,
    Helê

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  6. Ai, Helê, como é bom te ler!

    Ô, querida, bom encontrar você aqui! Apareça mais😀
    Beijoca,
    H.

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