Mermão

Em inglês se diz brother-in-law; em francês, beau-frère – diferença que sempre achei interessante: o que uma língua determina pela lei a outra define pela beleza. Em português há uma palavra específica, cunhado – que a sabedoria popular diz que não é parente, enfraquecendo um parentesco já meio frouxo. Pois o Laerte foi todos esses e mais alguns. Cariocamente bróder, parceiro na alegria e no perrengue; legalmente cunhado, irmão no amor pela beleza das canções. Por um longo tempo fomos também brothers in arms, unidos numa feliz, debochada e resistente trincheira flamenguista, cercada de alvinegros por todos os lados.

Mas eu e Laerte fomos, somos – e desconfio que seremos sempre – irmãos em notas. Não as monetárias (que a gente não dispensa), mas as musicais, para nós vitais porque nos alimentam, orientam, constituem. No mundo mágico da música estabelecemos um território de entendimento, livre de preconceitos e dogmas: ouvíamos de tudo, gostávamos de muitas coisas e até nos divertíamos com as discordâncias. Não é que a gente goste das mesmas coisas, é que a gente gosta do mesmo jeito. Compartilhamos o mesmo entusiasmo pela canção recém-descoberta, a expectativa pelo próximo álbum, a excitação pela regravação Na trincheirainusitada, a rendição ao verso matador que justifica um disco inteiro. Nossos encontros, que quase sempre começavam com sorriso e abraço festivo na minha chegada, pareciam jam sessions em que a gente ia improvisando, mostrando um ao outro novas aquisições ou clássicos resgatados; nos entendíamos por música e tocávamos de ouvido: sem partitura, marcando o tempo na batida do coração. Gente como Laerte e eu ouve música como quem respira: para viver.

A vida, essa mesma que nos reuniu e nos deu a chance de conviver, sofrer e crescer juntos, também nos apartou. É da vida fazer isso, como a falta é do jogo. Se a gente for esperto aproveita enquanto pode, retém o que precisa, celebra o que permanece. E a nossa fraternidade se mantém porque o que a música (e o Flamengo) uniu nada separa. Então, Lau, nessa data querida  eu quero te desejar os batuques mais potentes, as mais belas melodias, os solos mais surpreendentes, todas as cores do som. Tims, e Bens e tais; para você o que você gosta diariamente: nem mais, nem menos; nem luxo, nem lixo, só beleza pura. Saúde pra gozar no final (no meio e no início também). Desses seus (primeiros) 50 anos eu só posso dizer o que a gente falava nas nossas festas memoráveis, depois que a música certa na hora exata fazia todos dançarem loucamente: pode melhorar – e vai.  Qualquer hora dessas a gente se encontra de novo e faz um som daqueles, mermão.

Helê

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