Diarices e leituras

Sem correr há semanas, não ando bem. Bússolas eu perco ou esqueço, mas a corrida me dá um caminho, ou vários. Agora, que tenho um tempo que não pedi, me sobram faltas.

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E o entorno não ajuda: o mal-estar deixou de ser interino e as novas que chegam nunca são boas.

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Em tempos difíceis, back to basics – lição que aprendi nessa fonte inesgotável de sabedoria ocidental, os seriados americanos. Fui cuidar do corpo para tratar da alma; a moça que tem doce e beleza no nome, calor na ponta dos dedos, mandou cuidar da comida, do sono, do que entra e do que sai – do básico, em resumo.

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4c9987fed38c659e24a8ac6209163aa0Menos digital e mais analógico. Mergulhei na ficção dos livros, nadei braçadas vigorosas e terminei ofegante, claro. Elena Ferrante me inquieta demais, coloca uma lupa implacável nas minhas relações, pra não falar em mim mesma. Uma leitura que revira cantos propositalmente esquecidos, arranca cascas de feridas mal saradas, me expõe. Brilhante, mas perturbador. Doloroso, mas bom. Feito terapia.

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No intervalo forçado entre o segundo e o terceiro livro, fui conhecer A vida no campo e ahhh!, ali sim, estou encontrando acolhida, descanso, proteção. Crônicas de gentileza e sensibilidade, algum humor, outras belezas. Também é fundo, mas não machuca: é leitura que abre as janelas, passa um café e senta com você na varanda (ainda que você more no 8o andar de uma rua barulhenta). Ficarei por lá enquanto puder, antes de voltar a Nápoles.

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Ler o “Arquipélago” atravessando a Baía de Guanabara soava mais que adequado: era quase um complemento à leitura. Mas ontem, enquanto lia “A vida do Campo” no metrô, perdi a estação em que deveria descer. O que também tem lá a sua poesia, você há de convir.

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Para amansar um sono sempre indócil, experimentei dormir sem luz alguma. Para minha grande surpresa, descobri que a escuridão era bem menos intensa do que pensava.

Guardei a metáfora, pode ser útil.

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54ff983a23b47-books-cooley-de“Só o que é íntimo me interessa”, diz o Joel a certa altura. A ideia me agrada imenso, e além do mais admiro quem formula assim uma preferência, com certeza e destemor. Sou incapaz de frases definitivas – o que lamento muitíssimo, a vida parece mais leve para quem duvida menos. Se a frase fosse minha, eu diria que só o íntimo têm me interessado ultimamente. O superficial tem me parecido vão – e quase tudo tem me soado muito superficial nos tempos que correm.

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Então me lembro do que me respondeu Isabel Duarte Soares para um comentário meu em seu blogue primoroso (quando eu ainda tinha coragem de comentar lá). Ela me ensinou algo sobre a introversão como a centralidade do mundo interior ou algo assim. Volto lá para conferir. Procuro um pouco (já faz algumas semanas que li), esbarro em um post em que ela fala do Joel e penso “que coincidência!”. Até encontrar o post que procurava e ver que o título é “Talvez me falte a corrida...”. Então acho que o ciclo se completou e que encontrei um desfecho para este post.

Helê

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