Obama out*

giphy

Escrevi sobre Barack Obama várias vezes aqui; também minha sócia comentou sobre esse presidente que primeiro capturou nossa atenção e, depois, conquistou nossa definitiva admiração. Por causa dele minha filha revelou seu feminismo precoce e autodidata; encontrei paralelos entre a trajetória dele e a minha, e não resisti a publicar Obama’s  pictures, série de posts com imagens de  uma coleção mais ampla. Ainda assim, hoje penso que foi pouco, que poderia ter falado mais ou melhor sobre seu imenso carisma e a sua natural habilidade midiática, bem aproveitada por um competente time de comunicação. Falo então agora, a pretexto de despedida e homenagem.

O fato de ser o presidente dos Estados Unidos ao mesmo tempo nos fascina e afasta, porque ele tem todos ou muitos dos vícios desses vizinhos que sentem senhorios do mundo, os donos da bola. Mas Obama não será lembrado por aquilo que o iguala aos seus antecessores, e sim pelo que o distingue – para além da cor da pele, mas também por causa dela.

Sentirei falta desse homem cuja figura e postura produziram efeitos tão impactantes  (ou mais) que suas palavras. Mesmo seus opositores não são imunes a sua imagem equilibrada, confiante e classuda. Sua elegância inegável e perene ultrapassa o vestuário ou as atitudes: tornou-se um jeito de estar no mundo, um modo Obama de ocupar os espaços conquistados, sem pretensão ou arrogância, mas com propriedade e segurança. E isso, mes amis, não é pouco; é para poucos.

14b782ce723ea0da0c18914e993fa4bfObserve  que na maioria dos registros do presidente – com a família, com crianças, em cerimônias ou pronunciamentos – ele está à vontade. Aparece quase sempre ereto, mas não rígido; flexível sem ser desajeitado; sensível mas nunca afetado. Obama parece confortable in his own skin – em sua black skin, é bom que se diga. Quantos de nós podem se sentir assim, independente de idade, peso, cor, gênero? E quem de nós, negras e negros, estando onde não nos esperam encontrar, consegue ficar realmente à vontade? As fotos carregam uma mensagem subliminar poderosa: Barack Obama mostrou não apenas que um negro pode ocupar cargos de importância e destaque, mas pode fazê-lo com a mais absoluta desenvoltura e naturalidade.

Se eu, sob tortura em Guantánamo, fosse obrigada a escolher apenas uma das memoráveis fotos de sua passagem pela Casa Branca, seria uma tirada ainda no início do primeiro mandato, ele e o menino no salão oval:

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Essa imagem ao mesmo tempo forte e amorosa, transgressora em so many levels, ainda me impressiona: o homem mais velho que se curva diante do erê; o poderoso capaz de se deixar tocar, e logo na cabeça (coroada). O menino não acredita que o chefe da nação seja tão parecido ele;  pergunta então se os penteados são iguais e Obama oferece o cabelo, esse forte signo da negritude (e também vetor do preconceito). Só estando muito confortável com sua própria posição você pode subverter a ordem e desprezar a liturgia do cargo sem perder a compostura. Acho que foi a partir desse momento que eu me rendi ao moço  – assim como ao talento do Pete Souza, fotógrafo capaz de tornar irresistível um trabalho chapa branca que tinha tudo para ser apenas burocrático**.

3204ce313273efa9e82f1303cdcfd940Mas há ainda um ensinamento que aprendi com Obama, fruto de outro ganho simbólico a destacar dos Obama’s years, que é a relação dele com a esposa. Como já disse antes aqui, enaltecer a família e seus valores está no capítulo 1 do livro da política, mas Obama foi além: enalteceu o casal, valorizando a parceria ao mesmo tempo em que dava espaço para a brilhante personalidade de sua mulher. Não perdeu oportunidade de reconhecer e homenagear a inteligência e habilidades de Michelle, e nem de declarar seu amor. No discurso de despedida em Chicago, na semana passada, ele a chama pelo nome completo, para depois identificá-la carinhosamente como “the girl from the south side”, numa referência ao início do namoro, ocorrido naquela cidade. É um momento terno, bacana, mas o mais eloquente aconteceu segundos antes: quando ele fala “Michelle” e olha para ela. Pronto, já está tudo dito. Ela sorri, visivelmente emocionada; ele faz uma pausa, enxuga uma lágrima, igualmente emocionado, e o público explode em ovação (aqui o vídeo). Eu, daqui, com um cisco no olho,  aprendi a lição: namore alguém que te olhe como o Obama olha pra Michelle.

Helê

*Esse artigo, em inglês, explica o significado por trás do gesto divertido de Obama, o drop the mic no último jantar com os correspondentes estrangeiros.

**Neste link você pode ver a seleção anual de fotos feita por Souza.

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6 Respostas

  1. Adorei, como sempre!

    Também adoro encontrar você aqui, Si, sempre!
    Beijoca estalada,
    Helê

    Liked by 1 person

  2. namore alguém que lhe olhe como o marido da Michelle, mas se tiver uma creche, contrate o Obama. Ele tem talento pra lidar com crianças, não?

    Nossa, e como! As melhores fotos são com elas, fotos que você tem certeza que ele esqueceu que está sendo fotografado. Eu deixaria um filho pequeno com ele sem pestanejar!
    Beijo, Lord; bom vê-lo por aqui! ❤
    Helê

    Liked by 1 person

  3. Que leitura sensível da foto e dos Obama.

    Oi, Juliana; obrigada pelo comentário.
    Volte sempre! 😉
    Aquele Abraço,
    Helê

    Liked by 1 person

  4. Adorei, muito bom!!!

    Muito obrigada, Sergio.
    Volte sempre – a casa é nossa.
    Aquele Abraço,
    Helê

    Liked by 2 people

  5. […] 4. Adoro o blog Duas Fridas. Queria que elas escrevessem mais. Dessa vez elas falaram algumas coisas sobre Obama que talvez você também gostaria de ler. Veja lá! […]

    Liked by 1 person

  6. Adorei isso: “Barack Obama mostrou não apenas que um negro pode ocupar cargos de importância e destaque, mas pode fazê-lo com a mais absoluta desenvoltura e naturalidade.”

    E classe e humor.
    Realmente não é pra qualquer um.

    Isso, humor também! Taí uma habilidade difícil de ser manipulada ou desenvolvida, e ele a demostrou em muito momentos.
    Bom te ver por aqui, Dê.
    Beijoca,
    Helê

    Gostar

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