Bigorna

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Tenho quase cinquenta anos e recentemente essa constatação caiu na minha cabeça como uma bigorna de desenho animado. A imagem é divertida, o sentimento não. Quando me dei conta disso fiquei meio zonza, depois um pouco ofegante; experimentei um mini ataque de pânico. Culpa e recriminação às golfadas, ansiedade. Depois tristeza; ainda espanto. Não, não se apresse em corrigir e dizer que falta muito: é depois de amanhã – ainda semana passada eu fiz 40, surpresa.  Interrompi a leitura de Dupla Falta (Lionel Schriver) para ler Não há tempo a perder (Amyr Klink), sem me dar conta da metáfora de imediato – mas fiz terapia por muito tempo pra deixá-la escapar por completo.  Terapia talvez ajudasse – mas, pensando bem, ela estava lá anos atrás, quando eu deveria ter me preparado para isso. Isso o que, exatamente? Envelhecer? Sim, talvez seja isso, em resumo; mora aí o desconforto. Negá-lo não o fará desaparecer, então vamos enfrentá-lo, olho no olho, sem enfeite nem fuga. Sinto que me falta um plano que deveria ter feito 20 anos atrás. Pode voltar a fita? Acho que nunca pensei em perspectiva, e talvez tenha me dado conta tarde demais de que precisava ter feito diferente. Bom, em minha defesa devo dizer que, let’s face it, venho de um lugar na pirâmide social onde a perspectiva é trabalhar até o fim da vida, com discretas variações. Por mais que o estudo tenha me empurrado para as fronteiras da classe média e eu socialize mais com o privilégio do  que com a privação, não me afastei dela o suficiente para não me sentir ameaçada. E eu não contava com a possibilidade de, sendo jornalista, virar um mordomo, ou seja, um profissional obsoleto e em extinção. No entanto, let me face it, exatamente por ter não contar em herdar nada além de hipertensão e o braço gordo da minha avó, eu deveria ter me preparado melhor para envelhecer com alguma estabilidade, ou pelo menos com a ilusão dela. Espero que ainda seja cedo para ser tarde demais.

 

Helê

Maciço

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(Francis Baker)

Da série Corações

Helê

Falta

O Facebook oferece diariamente fatias de memória, em geral saborosas porque lá a gente mostra mais o lado A da vida. Há semanas salpicam confetes e serpentinas na minha timeline, registros passados da ofegante epidemia que há muito me contagia e à qual me entrego com fervor, o carnaval. Também tenho sido lembrada de textos que escrevi sobre esse momento, sempre encantado para mim, ora sobre a expectativa e ansiedade de aguardá-lo; ora sobre o deleite e o banzo de tê-lo vivido plena e cariocamente.

Mas não sei se o FB terá algo a mostrar para mim nas próximas edições do túnel do tempo, porque neste ano a centelha ainda não acendeu. Pode ser que ainda aconteça – ano passado eu saí da apatia para a barca de Paquetá atrás do Pérola da Guanabara, me lembra D. E eu tenho um nome a lazer, como se sabe. Mas aquele desejo genuíno e indomável encontrar os amigos, sair à rua e brincar, rir dos outros, do improviso, do imprevisto, da vida, em resumo, não apareceu.

O que falta? Tenho uma forte suspeita relacionada um ingrediente fundamental. As do passado ou não cabem ou estão muito gastas; faltam recursos – financeiros, criativos – para novas. Então acho que isso explica a razão do meu desânimo para o carnaval este ano: estou sem fantasia.

Pun intented.

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Helê

Carnavalesco

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(Cardigan)

Da série Corações

Helê

 

Resistência

Em tempos de crise uns choram, outros vendem lenço.

Outros tantos resistem, de muitas maneiras:

– O Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, trocou algumas de obras de seu acervo por trabalhos de artistas dos sete países afetados pela ordem executiva do presidente Trump referente à imigração. Trabalhos de artistas como Picasso e Matisse deram lugar a outros de Ibrahim El-Salahi e Parviz Tanavoli, por exemplo, acompanhados de um texto do Museu, explicitando suas intenções: “This work is by an artist from a nation whose citizens are being denied entry into the United States, according to a presidential executive order issued on January 27, 2017. This is one of several such artworks from the Museum’s collection installed throughout the fifth-floor galleries to affirm the ideals of welcome and freedom as vital to this Museum, as they are to the United States.
(Com informações do Hypeallergic, via Canal Meio)

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Parviz Tanavoli, “The Prophet” (1964) (photo by Robert Gerhardt)

– Uma mesquita no Texas sofreu um incêndio, de causas ainda não esclarecidas, no dia 28 de janeiro – apenas algumas horas depois da ordem de Trump, que neste momento em que escrevo, está suspensa por um juiz federal. Uma petição on line para a reconstrução do templo atingiu o valor necessário em menos de três dias. E a ajuda veio também de outras formas:
Some people have offered to perform carpentry work, lend their trucking services and knit new prayer rugs, while churches and a synagogue have offered space to Muslim members to pray and hold meetings, according to Dr. Hashmi and the fund-raising page.
“Jewish community members walked into my home and gave me a key to the synagogue,” he said. “Churches came and prayed with us, and people brought cash and checks.” (New York Times)

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 (Mohammad Khursheed/Reuters)

É isso, gente, é preciso estar atento e forte. De novo e sempre.
Só quero saber do que pode dar certo.

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 (Dylan Miner, Métis)

Helê, querendo resistir mas sem saber direito como.

Livros, livros e livros 

A Val, do blogue 1 pedra no caminho (que inclusive é nossa colega lá na Central do Textão) propôs uma brincadeira com livros – e juntou duas coisas que adoro, daí que ficou difícil não aderir.

Se é verdade que “quem ama dá livros”, aí vão meus presentes para vocês.

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1. “É só uma lembrancinha…” (Um livro curto ou com menos de 100 páginas que tenha te encantado.)

Grimble, de Clément Freud. (Sim, o autor é neto daquele outro Freud mais famoso, o Sigmund.)  O menino Grimble tenta manter a ordem e a sanidade mental enquanto seus pais porralôcas vajam pelo mundo e se comunicam com o filho por meio de bilhetinhos e telegramas. Uma delícia.

(Enquanto estava escrevendo este post descobri – a Fal me contou – que  o Clément Freud foi recentemente acusado de pedofilia, e ao que tudo indica, era mesmo culpado. Meus sentimentos sobre Grimble ficaram bastante confusos.)

2. “Não precisava!” (Um livro que você amou ganhar de presente ou qual tipo de livro você mais gosta de ganhar.)

Gosto de ganhar livros que eu nunca compraria (tentem adivinhar quais são, rsrsrs)

Dos que ganhei de presente nos últimos tempos, o mais legal foi Cartas Extraordinárias, edição linda e correspondências verdadeiras e incríveis de pessoas sensacionais. Como não amar?

3. A embalagem perfeita (Uma capa sensacional.)

Sonhei que a Neve Fervia, de Fal Azevedo. A delicadeza da sobreposição de cinzas emoldura perfeitamente a trama densa que a Fal nos desvela nesse seu livro que sempre será meu favorito – estou, também, um pouco lá.

4. Presente dos deuses (Um livro que mudou sua vida.)

Foram muitos, especialmente os lidos no fim da infância e início da adolescência, época de formação do caráter. Mulherzinhas, Pollyanna, Os Carbonários, As Brumas de Avalon. E outros mais, mas a amostra tá boa, né?

5. Surpresa! (Um livro que você começou a ler sem muitas expectativas e te conquistou.)

O Sol É Para Todos, de Harper Lee. Sim, eu sei, todo mundo sempre falou muito bem desse que é um clássico da literatura do século XX. Mas, sei lá, talvez por outras experiências frustradas com autores americanos da mesma época (falarei disso mais adiante), não achava que fosse ser pega pelo universo do livro, como costuma acontecer com aqueles de que realmente gosto muito. Por sorte, me enganei, e a narrativa da sensacional Scout entrou para a galeria dos melhores ever.

6. “É a sua cara!” (Uma narrativa ou personagem com os quais você se identifique.)

Todo adolescente quer mudar o mundo? Talvez. Antes mesmo disso, aos 9 anos, encontrei em alguma das prateleiras de livros da casa dos meus pais um livrinho com tirinhas em quadrinhos de uma menina muito abusada, que tinha umas ideias ótimas para melhorar a vida neste pobre planeta que habitamos. Era a Mafalda, de Quino, que até hoje me parece um pouco um espelho meu.

7. Presente de grego (Um livro que não era nada do que você pensava e te decepcionou.)

São dois: O Grande Gatsby  e Pergunte ao Pó. Dois ícones da literatura do século XX, da geração perdida e da geração beatnik, e eu zzzzzzz…

8. “mais afortunado é dar do que receber…” (Um livro especial que você deu de presente ou daria.)

Cheguei meio atrasada na série napolitana, então não sei se sobrou alguém que pudesse ganhar de presente A Amiga Genial, de Elena Ferrante. Mas se houvesse essa pessoa, a presentearia com esse livro do demo, que parece que lê os pensamentos da gente e põe no papel, de um jeito que vem sendo chamado pelos críticos de “honestidade brutal” – e é isso aí mesmo.

9. “Pode trocar, se precisar!” (Um livro que você começou a ler, mas teve de parar: não deu para continuar!)

Morte em Veneza, de Thomas Mann. Autor muito elogiado e aclamado, livro pequeno, provavelmente mais fácil de ler que A Montanha Mágica, deixa eu ler esse primeiro para ver se consigo encarar a obra-prima, etc. Um capítulo, dois capítulos, sei lá eu quanto li… auf wiedersehen, Herr Mann.

10. Ainda na wishlist…

Pensei muito e cheguei à conclusão que não tenho livros na minha lista de desejos. Para mim, dinheiro gasto com livros não sai da conta corrente, eles são pagos com uma espécie de moeda mágica que nunca é subtraída do saldo bancário. Então é assim: vi, quis, comprei.

-Monix-

Odô Yá! Salve Iemanjá!

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(Ben Olafemi Kayede)

Helê

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