Bigorna

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Tenho quase cinquenta anos e recentemente essa constatação caiu na minha cabeça como uma bigorna de desenho animado. A imagem é divertida, o sentimento não. Quando me dei conta disso fiquei meio zonza, depois um pouco ofegante; experimentei um mini ataque de pânico. Culpa e recriminação às golfadas, ansiedade. Depois tristeza; ainda espanto. Não, não se apresse em corrigir e dizer que falta muito: é depois de amanhã – ainda semana passada eu fiz 40, surpresa.  Interrompi a leitura de Dupla Falta (Lionel Schriver) para ler Não há tempo a perder (Amyr Klink), sem me dar conta da metáfora de imediato – mas fiz terapia por muito tempo pra deixá-la escapar por completo.  Terapia talvez ajudasse – mas, pensando bem, ela estava lá anos atrás, quando eu deveria ter me preparado para isso. Isso o que, exatamente? Envelhecer? Sim, talvez seja isso, em resumo; mora aí o desconforto. Negá-lo não o fará desaparecer, então vamos enfrentá-lo, olho no olho, sem enfeite nem fuga. Sinto que me falta um plano que deveria ter feito 20 anos atrás. Pode voltar a fita? Acho que nunca pensei em perspectiva, e talvez tenha me dado conta tarde demais de que precisava ter feito diferente. Bom, em minha defesa devo dizer que, let’s face it, venho de um lugar na pirâmide social onde a perspectiva é trabalhar até o fim da vida, com discretas variações. Por mais que o estudo tenha me empurrado para as fronteiras da classe média e eu socialize mais com o privilégio do  que com a privação, não me afastei dela o suficiente para não me sentir ameaçada. E eu não contava com a possibilidade de, sendo jornalista, virar um mordomo, ou seja, um profissional obsoleto e em extinção. No entanto, let me face it, exatamente por ter não contar em herdar nada além de hipertensão e o braço gordo da minha avó, eu deveria ter me preparado melhor para envelhecer com alguma estabilidade, ou pelo menos com a ilusão dela. Espero que ainda seja cedo para ser tarde demais.

 

Helê

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4 Respostas

  1. Posso assinar embaixo em tudo. Fiz 35 e me sinto ainda com essa idade de mais de dez anos atrás! Como assim? E tenho que começar a pagar a previdência privada – resta ter emprego até os 70 e poucos pra juntar alguma coisa. Só desalento.

    Desalento é uma palavra adequada, Tina, infelizmente. Aquele seu tweet ficou ecoando na minha cabeça “nessa idade, nesse país, nesse governo, nessa cidade…” Escrever sobre isso foi difícil, mas ajudou um pouco a arrumar os pensamentos e também as emoções. Talvez também ajude, de algum modo, a gente perceber que outras pessoas estão vivendo coisas semelhantes. A gente tem que conseguir pelo menos arquitetar o plano B, né?
    Beijo grande, querida.
    Helê

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  2. Se te serve de consolo vc não está sozinha. Eu tenho pensado nisso o tempo todo. O seu texto inteiro me caiu como uma luva. E ainda me pergunto como foi que depois de estudar tanto ainda estou aqui? E olha sou bancária, funcionária de empresa pública, morei fora do país, voltei, fui casada, separei. E claro como toda mulher que se separa me lasquei. Hoje só o que ouço é você é competente merecia estar em melhor situação. E aí vem aquela frase da bigorna ali em frente: mas você resolveu casar e ir morar fora. Mas sigo em frente. E acho que podemos ir mais longe.

    Gi, serve de consolo sim, e muito. Minha motivação ao falar de uma inquetação que me parecia tão pessoal é suspeitar que ela talvez não seja exclusividade minha. E falar dessa angústia com quem sente algo semelhante pode ajudar, no mínimo pra não se sentir só, quem sabe até para ter alguma ideia de como inventar pra si um lugar mais confortável. E claro sentir menos culpa: em que pese a nossa responsabilidade pelas escolhas que fizemos, não tá fácil pra ninguém.
    Beijo , Gi, obrigada por comentar e partilhar.
    Helê

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  3. Que reflexão!!!
    Tenho pensado muito no amanhã e pelo atual cenário político, econômico e social,digo que Tá foda.
    Bj

    Pois é, Moniquinha, a situação política atual engrossou e muito esse caldo, cara. Eu já não espero nem que melhore, só que pare de piorar.
    Beijo grande, obrigada pelo comentário.
    Helê

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  4. […] via Bigorna — Duas Fridas […]

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