Na minha pele 

Fiquei esperando pelo livro do Lázaro Ramos na fila, por assim dizer; ansiosa, procurei antes de chegar às livrarias e comprei na semana de lançamento. Gosto dele, acho um excelente ator, um entrevistador responsável, dedicado; gosto de sua postura serena, firme e ao mesmo tempo relaxada, de seu humor. Era o que esperava encontrar em “Na minha pele”, uma perspectiva ao mesmo tempo séria e leve  —  coisas que, em geral, não encontro nas leituras sobre raça, sempre necessárias mas em geral pesadas e dolorosas.  Evidentemente, também há dor na trajetória de Lázaro – nunca conheci um entre nós negros que dela tenha escapado. Mas na narrativa de Lazinho sobressaem a doçura, a ausência de ressentimento, a franqueza; há também leveza e humor. É um livro honesto, de alguém que pergunta junto com o leitor,  ri de si mesmo, e não traz verdades, pelo contrário: desconfia delas. O estilo não se destaca nem compromete, mas essa nunca foi sua preocupação, ele esclarece desde o início. Buscava expor o que, em sua trajetória, poderia ser útil para o leitor, e em ‘útil’ estão contidos outros adjetivos: solidário, inspirador, provocativo. Missão cumprida, Lázaro.

Para mim, o grande mérito de “Na minha pele” é essa abordagem do racismo de um ponto de vista pessoal, íntimo – que inevitavelmente acaba reverberando no coletivo. Porque a tônica da discussão sobre o tema recai sobre a discriminação no mercado de trabalho, a coerção policial e o preterimento na escola — para citar apenas alguns efeitos em massa das desigualdades raciais no Brasil. Mas pouco se fala – ou se falava, até algum tempo –, da sensação esmagadora que sente um adolescente rejeitado, que acha que ninguém nunca vai se interessar por ele – e, principalmente,  sobre como esse adolescente enfrenta a situação. Cobramos – e cobraremos sempre – ações do Estado e da sociedade, mas é no varejo do dia a dia que o racismo mostra suas garras e aprendemos a afiar as nossas – não sem cicatrizes.   E me interessa esse viés, as ações pessoais, as resistências diárias e os rastros que deixam; o que fazemos (ou deixamos de fazer) com as sequelas da luta, muitas vezes brutal e brutalizante que negras e negros enfrentam em função de sua aparência. O depoimento de Lázaro contribui também para esse olhar privado sobre o problema, além de expor, novamente com sinceridade e destemor, de que maneira ele se move na vida considerando o racismo mas sem se deixar pautar pelos racistas.

Das variadas reflexões do livro, uma frase que não sai da minha cabeça desde que li: “afeto é potência”. Ela ainda reverbera na minha cabeça e no meu coração, semanas depois de terminada a leitura; ainda não esgotei seus significados. É o que faz um bom livro: permanece em você mesmo depois de lido.

Helê

 

Helê

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5 Respostas

  1. e ele é querido de tantas pessoas, que nunca sequer pensam sobre essas coisas, porque estão longe demais de seu dia a dia de pessoa branca e privilegiada de alguma forma. como minha irmã… sua existência também tem poder… quero muito ler…

    Leia, Beth, vale muito a pena. E tem isso, ele imprime muito dele na escrita, é como um encontro, sabe?
    Beijo grande procê. ❤
    Helê

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  2. Gostei da singeleza da resenha, certamente movida pela leitura franca mas também pela tua natureza… Fiquei interessado. Tá na lista!

    Bacana! Fique à vontade para voltar e contar o que achou.
    Aquele abraço,
    Helê

    Liked by 1 person

  3. Oi, Helê! Amei a foto. É aquele tipo de imagem que não apenas ilustra o texto, mas o complementa e o ultrapassa. Belo texto, por sinal. Você tem mesmo a mesma vibe bem humorosa (humorada + amorosa) do Lázaro. Talvez por isso a foto tenha ficado tão perfeita! 🙂
    Beijo, Luísa.

    Nossa, Luísa, humorosa é sensacional, que palavra boa! E que bom ser identificada com ela; muito obrigada.
    Volte sempre, viu?
    Beijoca,
    Helê

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  4. Tô lendo. Tô gostando. Depois eu conto o que achei.

    Conta sim, baby, quero saber.
    Beijoca,
    H.

    Gostar

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