Back to basics 

Boa música, como se sabe, nunca sai de moda. Mais que isso, suspeito que para pessoas de uma certa idade são as velhas canções as mais eficientes naqueles momentos cruciais da vida, assim, quando dá ruim de verdade. Recorremos àquelas que a gente ouviu quando era pequeno ou bem jovem, às primeiras que a gente fez interpretação de texto quando nem sabia que tinha esse nome.

Bom, pelo menos comigo é esse o padrão. Há algum tempo, quando o oceano da vida me mandou um tsunami que nenhum radar foi capaz de detectar, eu me peguei cantarolando Guilherme Arantes, porque eu que tinha tudo (ou quase) queria estar no escuro do meu quarto e daria tudo por meu mundo e nada mais. Uma canção que aprendi quando tinha uns sete anos de idade, com a novela Anjo Mau, na versão em preto em branco (pelo menos na minha televisão era). Quando me separei eu me peguei garrada no Milton e repetindo “forte eu sou, mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar”, versos aprendidos antes de ser capaz de tamanha tristeza. Quando o amor acabou, ouvi mil e uma canções de separação, mas a explicação mais precisa e honesta veio num samba de Cartola, preciso desde o título: “Acontece”. Faz parte de um disco maravilhoso que meu pai ouvia semana sim e outra também, e que sei de cor. De coração – de onde saem para me acudir e consolar, sempre que preciso, essas canções que aprendi muito cedo, e que compreendi antes mesmo de entender.

E você, pra que canções antigas você corre ou quais te alcançam quando você precisa?

 

Helê

Lutador

 

(Salvo de cardiac-art.tumblr.com)
 Da série Corações

Helê

Broken

Da série Corações

Helê

SP

Voei para São Paulo com Caetano na cabeça, mais precisamente com “Baby” – vivemos na melhor cidade da América do Sul. Postei e os paulistanos, claro, adoraram. Era mais referência musical simples que uma rendição, mas sim, estou preparada para conceder esse título a Sampa. Eu me contentaria simplesmente em voltar a viver numa cidade viável – sem nem ligar pra ser maravilhosa.

Gostei de São Paulo desde a primeira vez que conheci: gosto dos cheiros da cidade, dos sotaques múltiplos, das novidades, do verde inesperado e, sobretudo, das pessoas. São Paulo para mim rescende a amizade, lá vivem algumas das pessoas da que eu mais gosto nessa vida, sejam elas nascidas, enamoradas ou apenas acolhidas pela Pauliceia. Então posso ir a um congresso da CUT, correr a São Silvestre, acompanhar a cirurgia cardíaca da minha mãe ou de férias, não importa: nas fotos guardadas na memória afetiva a cidade se funde com sorrisos e abraços e gargalhadas – como não amar SP?

Gente da minha mais alta estima (bota alta nisso): Fal & Maliu (no alto),  Zé Carlos (de óculos), Jô & Manu, e Vitor.

Depois de “Baby”, a Radio Cabeça passou a “Panis et Circense” e “Tropicália” e pensei que nada é mais paulistano que esse início de carreira do Caetano – no prédio em que fiquei, no pátio interno havia uma piscina com água azul de Amaralina, coqueiro, brisa e fala nordestina. O menino de Santo Amaro, ao chegar, sacou tudo, ou pelo menos, muito. Certamente ficou zonzo como eu com o ritmo veloz das pessoas e acontecimentos, com o tanto que você precisa saber (da piscina, da margarina, da gasolina, andar com a gente, viver de perto) A quantidade absurda de possibilidades desnorteia uma libriana como eu, quase na mesma proporção que me seduz.

Sampa descolada, cosmopolita, que eu entendi ainda melhor agora, depois de ter conhecido Nova Iorque – sim, há semelhanças e afinidades entre elas. São Paulo que se acha e onde a gente se perde fácil, para encontrar o mundo todo e nacos de Brasil na próxima esquina. Esse lugar onde o vendedor te chama de linda (e eu, besta, acredito). Onde tudo é muito, farto, veloz. São Paulo que sempre me surpreende: peguei um táxi no aeroporto preocupada, como de costume, em não ser enganada, mas o motorista deu voltas foi na conversa, até chegar ao problema com a namorada. Com ciúmes de uma passageira, a moça havia brigado com ele duas semanas antes; ensaiou uma volta, mas tá confusa e ainda quer um tempo. Ele – jovem, alto, forte, bonitão – desabafava comigo, incrédula: não consegue assistir as aulas na faculdade, tá com uma dor no ombro que tem certeza que é tensão e confessou sem rodeios: já chorou um monte. Eu só conseguia pensar no Criolo: alguém avisa a ele, por favor, que tem ainda existe amor em SP.

Helê

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