Leituras

Acabei de ler a autobiografia de Eric Clapton, minha mais recente leve obsessão. O título poderia ser “Brutally honest”, porque o deus da guitarra expõe seus demônios e sombras de um modo implacável, talvez mais até que suas conquistas. Sem aspirações literárias, Clapton dispensa floreios e vai direto ao ponto – he cuts to the chase, para usar outra expressão americana bem precisa. Relata com detalhes tanto sua iniciação musical, os primeiros shows, ídolos e grupos quanto seu confuso histórico familiar, sua conflituosa vida amorosa e sua dependência química quase fatal. Ele é tão franco que, ao concluir o livro minha admiração pelo músico aumentou, mas não sei se gosto da pessoa, embora a respeite imenso. Em que pesem os estragos causados pelo alcoolismo, que o debilitou durante grande parte da vida, Clapton me pareceu em muitos momentos egocêntrico, imaturo, arrogante. Mas perceba que eu formei essa imagem a partir do que ele descreve sobre si mesmo, o que só reforça a franqueza incomum de seu relato.

Eu nem posso ser considerada uma fã, mas gosto muito do pouco que conheço e tenho uma clara noção de seu papel ímpar na música ocidental dos últimos 40 anos. Uma trajetória extraordinária, de fato, e tão rica que não consigo imaginar como foi possível escolher entre o que incluir ou o que deixar de fora numa vida que parece ser tido várias encarnações em uma só. Isso sem contar as companhias, que Seu Clapton não era um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones: ele andava com os Beatles e os Rolling Stones numa daquelas épocas em que parece que todas as pessoas realmente interessantes no mundo estavam no mesmo lugar – ou o mundo era menor, ou era mais interessante, não tenho certeza. O fato é que a trajetória de Eric Clapton é uma aula incrível sobre blues e rock n’ roll, mas irresistível para qualquer admirador da boa música, além de um depoimento corajoso de alguém que conheceu céus e infernos e sobreviveu pra contar.

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“Dias de abandono” é um livro angustiante, tenso, que não te dá refresco nem consolo, te deixa em suspenso, torcendo e morrendo de medo de estar no lado fadado ao fracasso. Não há leveza, parece um mergulho do qual você não consegue voltar antes que seja absolutamente necessário, sem atalho nem truque. Tudo isso só prova o quanto é incrivelmente bem escrito, porque provoca uma gama de emoções vasta e funda, quer você queira ou não. Todo mundo que já viveu  dias de abandono – horas, semanas, meses – revisita essas dores e cantos escuros. Li com o coração na mão. Difícil, mas belíssimo e poderoso – um autêntico Ferrante.

Ah, e assim como na tetralogia napolitana, a capa brasileira é anos-luz superior às das edições italiana e americana.

Helê

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