Violência institucional

Estava naquele estado impreciso e nebuloso, próprio das manhãs de ressaca e sono. Achei que tinha ouvido a televisão falar algo como “Geisel mandou executar, diz documento”, mas achei que tinha entendido errado. No caminho para o trabalho, horas depois, li no Meio a notícia e, imediatamente, fui olhar as capas dos jornais porque essa notícia era, para mim, uma manchete histórica com há muito não se via. Na verdade, como nunca se viu no tocante a esse assunto. O Globo deu o destaque que eu esperava, mas os outros nem tanto. Nas minhas redes sociais houve repercussão – maior no twitter que no FB –, mas achei pouco. Não entendi porque TODO MUNDO não está falando disso. Então vim aqui no blogue, subi no meu caixote pra falar do que acho importante e que geral não está dando a devida atenção.

Só os mileniais podem não saber (mas deveriam) sobre a tortura e as mortes ocorridas durante o regime militar. Nem os militares negam: o que fazem é tentar justificar. E muitas  pessoas, militares ou não (muitos cidadãos de bem, essa terrível entidade brasileira) acreditavam que excessos, se houve, foram isolados. Daí a importância de um documento oficial do Estado americano afirmando que um presidente da república foi oficialmente informado da execução de 104 pessoas, refletiu, e aprovou a continuidade da prática, desde que sob a supervisão do general que viria ser também comandante da nação, seu sucessor. Isso precisar ser escrito em negrito, se não em caixa alta, porque só não é mais assustador que a possibilidade dessa notícia ser esquecida na edição de amanhã. Derruba a versão que percebia excessos e exceções onde havia institucionalidade: o assassinato sistemático de pessoas autorizado pelo governo há 40, 50 anos – o que, em termos de história, acabou de acontecer. E o que nos iguala a regimes que execramos com suposta superioridade.

Decision by Brazilian President Ernesto Geisel To Continue the Summary Execution of Dangerous Subversives Under Certain Conditions (link para a transcrição do documento)

A precisão numérica também indica que o controle sobre essas mortes era maior do que as Forças Armadas sempre nos quiseram fazer crer. Tão óbvia quanto revoltante foi a reação do  Exército que, em nota, lembrou que os documentos sobre o período já não existem mais – como sempre se alega em todo período vergonhoso dessa nossa republiqueta que se pretende nação e não passa de uma terra de brutalidades. Essa manchete, dividindo espaço na primeira página do jornal com a reconstituição da execução da vereadora Marielle Franco, ontem no Rio de Janeiro, deixa a sombria impressão de que abater inimigos é prática arraigada e corrente nesses trópicos cada vez mais tristes e sempre cruéis.

Helê

 

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Uma resposta

  1. O único local público onde esporadicamente faço comentários sobre temas polêmicos é aqui, então vamos lá:
    Por que será que nessa extensa cobertura que a Globo fez do assunto não li nenhuma pergunta sobre os parágrafos “não liberados” que possivelmente dariam contexto ao informe ou uma ideia de como o espião da CIA obteve a informação. Fonte primária – ele estava na sala, fazendo o quê? Secundária – algum dos citados contou para ele? Opinião – ele imaginou que deve ter sido assim?
    Não sei bem como funciona a pesquisa histórica (minha formação é em exatas, culpada!), mas infiro que para dar crédito a um documento deve haver formas de cruzar dados de diferentes fontes e/ou verificar a idoneidade/interesse da fonte.
    Dito tudo isso, acho que faltou relacionar, de fato, o quanto evoluímos enquanto sociedade da instituionalização da violência para o estado de sítio com centenas de execuções mensais que os jornais nos reportam diariamente (dentre bandidos, policiais, políticos e cidadãos que somente passavam no local na hora errada).

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