Tamo junto!

Eu tinha rascunhado umas coisas pra dizer sobre Rio em Shamas, livro do Anderson França, mas ficou perdido numa nuvem dessas da internêta. Reencontrei essa semana e acho que ainda vale a pena postar; além de divertidíssimo, o livro merece toda atenção que puder despertar. Porque o Dinho, como também é conhecido, ainda é uma voz incomum na literatura: a periferia falando e refletindo sobe si mesma. E com humor.

Eu fui fisgada pelo primeiro texto dele que li, que tem o título singelo de “São Jorge – O Cu Enquanto Memória Expandida – O Pessach”. Devota que sou, recebi num 23 de abril e repassei pra várias pessoas, porque me pareceu uma excelente homenagem, malandramente carioca. A partir dessa crônica passei a seguir o Anderson no feicebuque e conheci “Rio em Shamas”. Tem muitas coisas interessantes na escrita dele, sendo a primeira delas o estilo, que parece anárquico mas possui uma lógica própria. Além disso, soa familiar: assim que li achei que estava reencontrando um parceiro, mesmo que nunca o tenha visto.

Impressiona a maneira como Dinho é capaz de observar a realidade sendo “de dentro”, mas se distanciando o suficiente (mas não muito) para descrevê-la como se fosse “de fora”. Essa habilidade se expressa, entre outras formas, na sua incrível capacidade de transcrever os dialetos suburbanos para o papel. Quando ele escreve, no texto do São Jorge, “Ciligou?”, a gente tem um segundo de estranhamento mas entende em seguida (sobretudo nós, cariocas). A palavra não existe, mas quando lê, você a compreende. Em outro trecho ele fala de como o Santo Guerreiro consegue a devoção de católicos e protestantes anglicanos, que só têm em comum, além dele, Jesus. E comenta: “Olha. A. Moral. Do. Maluco.” Uma sentença que você lê ouvindo. E quase vendo a expressão facial e os gestos do narrador.

Nos livros da Elena Ferrante fiquei fascinada, desde o início, com a questão do dialeto, de evidente importância na trama. Delineia personalidades, circunscreve espaços e define o tom de muitas cenas. Desde então me pergunto sobre os nossos, quais seriam? Porque me parece impossível que uma população grande e complexa como a nossa não os tenha. Eu não sei qual é a definição técnica de dialetos – alô, linguistas, socorro – mas me parece que é exatamente o que o Dinho transcreve nas suas crônicas. Aquele não é o Português formal, não tá puro: é a língua descalça na laje pegano sol, desenrolando as situação e dando S nos obstáculos. Uma linguagem rica e vistosa, fluida, de difícil apreensão e fácil compreensão. Talvez por isso poucas vezes possamos ver essa oralidade impressa, e quase nunca valorizada como parte importante da cultura.

Marechal Hermes, estação do trem. O subúrbio também pode ser bucólico

Além disso, tem o lugar de onde ele escreve, o tal “lugar de fala”, que traz para o texto gentes e espaços sobre os quais eu pouco leio no dia a dia. Acho que nunca tinha lido uma crônica que falasse de Cavalcante, bairro aqui do subúrbio do Rio. Ainda vigora no imaginário coletivo (e nas mídias todas) um Rio de Janeiro que vai da zona sul até, no máximo, o Centro. Então dá um prazer danado reconhecer e reencontrar o subúrbio nos textos do Dinho – ainda mais em crônicas, esse gênero que eu amo e que me ensinou a gostar de ler. Sem folclore ou sentimentalismo, mas com a língua afiada e a mania de rir de si mesmo de um jeito que só quem é pode – só quem é preto, pobre, suburbano, favelado. Nem sempre concordo com Dinho, mas acho absolutamente necessário que ele conquiste espaços de expressão para além da internet; acho um livro como o dele relevante porque rompe expectativas, quebra padrões. No “Rio em Shamas”, o subúrbio e seus moradores faz o que os pretos fizeram recentemente na universidade: deixaram de ser objeto para virar sujeito. É nóis.

Helê

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