Les bleus encore

Achei a foto ótima assim que vi; primeiro, pela plasticidade do gesto, e depois por ser um chefe de Estado despido do protocolo e (in)vestido da paixão de torcedor. O sempre atento Conexão Paris reproduz matéria do Le Perisien que desvenda como foi feita a foto que viralizou, num ambiente supostamente imune a fotógrafos.

Quando escrevi o post-retrospectiva da Copa, eu usei a expressão “Black, blanc, beur” para falar da seleção francesa. Li na matéria da BBC e pareceu adequada para identificar um time de filhos e/ou netos de imigrantes com ascendências africanas diversas. Cheguei a postar uma imagem que detalhava as origens de cada um deles, mas depois apaguei. Fiquei em dúvida, pensando se supervalorizar a afrodescendência de jogadores poderia contribuir para desvalorizar a condição de franceses. Por outro lado, há os quem os querem apenas franceses e nada mais – a rusga entre um comediante americano e o embaixador francês ilustra bem a situação. Para tentar compreender a complexidade do quadro e suas muitas nuances, assista ao excelente Le Bleus – une autre histoire de France 1996-2016. Acompanha todas as tensões, desdobramentos e impasses que uma seleção mutirracial campeã do mundo trouxe para um país que oscila entre o racismo confesso e uma débil tolerância. Está tudo lá, e a final desta copa da Rússia talvez tenha sido a cena final do filme.

Helê

Perder

Nunca assisti “Highlander” todo, só o início, mas não esqueci da angústia do guerreiro imortal, que era ver morrer quem ele amava, ao longo de séculos. (Acho que Dorian Gray tem sentimento semelhante.) Descubro, dolorosamente, que esta é a angústia de todos nós, e que tende a ser mais recorrente a partir de uma certa idade, sempre muito mais cedo do que a gente gostaria…

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A arte de perder, da qual fala tão lindamente a Bishop, eu não domino – embora não seja, como ela diz, um mistério.

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“Vocês eram próximos?” Sim; de certas pessoas você fica próximo, para sempre. Mesmo que não veja há meses ou anos. Basta um encontro e está tudo lá intacto, sem nem poeira: o carinho inteiro, a cumplicidade, o bom humor partilhado, um capítulo da sua vida reavivado, presente.

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Os ritos de passagem, o reencontro sofrido em circunstâncias idem, o luto. Aqueles momentos da vida que você precisa seguir o caminho mais difícil porque não há alternativa nem retorno: não há atalho na dor.

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Fui amparada por amigos atenciosos, delicados, disponíveis; por um punhado de canções do Lenine, um livro sobre o Chico Buarque e pelo Flamengo. Pedi ajuda e usei o que tinha à mão: dois dos ensinamentos básicos de qualquer manual de sobrevivência.
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“A vida é tão rara. A vida não pára.”

Helê

Escritórios abertos, pessoas fechadas

Tinha um post rascunhado há anos, uma ideia não desenvolvida, sobre trabalhar em salas coletivas, quando se pode ouvir o que os outros dizem. Esse esboço falava sobre o tom de voz que as pessoas usam para falar com os pais – impaciente, condescendente, apressado –; e a maneira de falar com os filhos – tatibitati, carinhoso, às vezes severo, também condescendente em alguns momentos. Trabalhei com equipes de idades diversas, gente jovem sem filhos e adultos que variavam entre um tom e outro. E, depois de um tempo, sempre podia dizer quando alguém falava com os filhos ou com os pais. Interessante que enquanto trabalhei em ONGs e centros de pesquisa, locais de natureza mais liberal, havia divisões tradicionais, por salas; só quando fui para uma agência de comunicação, em 2010, passei a trabalhar nesse esquema todomundojunto.

Acontece que nunca redigi o post e, mais rápido do que eu poderia pensar, ele envelheceu. Começou a onipresença do celular, e as pessoas simplesmente passaram a sair da sala para ligações particulares. Agora as pessoas trabalham de fones nos ouvidos e mandam mensagens por uatzapi. Frequentemente você precisa chamar a pessoa duas ou três vezes para que ela te dê atenção.

Não estou apontando o dedo sem me incluir, faço isso também quando preciso de maior concentração numa sala de 12 pessoas (fora os visitantes). Mas estranho que seja um padrão; também me incomoda a velocidade da mudança: estou falando de um comportamento que se alterou em menos de uma década.

Aí hoje li uma matéria do tipo “estudos indicam” sobre o que eles chamam em inglês de “open office”, escritório aberto, e tive o pretexto que precisava pra reanimar meu post rascunhado.

Por falar… A teoria de que um escritório aberto, sem baias ou repartições particulares, ajuda a estimular a colaboração entre os funcionários não funciona muito bem na prática. Um novo estudo mostrou que os escritórios abertos fazem os funcionários se fecharem ainda mais. O barulho faz com que as pessoas coloquem fones de ouvido e ‘desliguem’. A falta de privacidade as leva a preferir trabalhar em casa quando podem. E a sensação de estar em um aquário significa que muitos escolhem conversar por e-mail a iniciar um bate-papo. (Canal Meio)

Agora, discorram sobre o assunto 😀

Helê

Missing Obama

Olhando meus arquivos senti uma saudade enorme das fotos do Baraque – e, evidentemente, de sua elegância, gentileza, habilidade e inteligência, para dizer pouco. Tudo que falta amplamente a seu sucessor, aquele que eu não gosto nem de citar o nome. Mesmo compreendendo que os Estados Unidos não são Nova York ou a Califórnia apenas, entendendo que parte substancial do eleitorado é mesmo conservadora e tal e coisa, ainda hoje eu  me sinto afrontada quando me deparo com o empresário laranja na presidência. Fico envergonhada e surpresa. Ainda acho inacreditável que a América tenha eleito alguém tão escandalosamente despreparado, artificial, raso. Além de ser de um mau gosto imperdoável em tudo, roupa, cabelo, bronzeado, ideias… Não que estejamos em situação melhor aqui em Pindorama, mas podemos sempre lembrar que aqui foi golpe – foi muito golpe, golpe à beça.
Enfim, deixa eu aproveitar meu blogue pra matar a minha saudade fazendo uma reedição das Obama’s pictures.

PS: Há duas semanas, quando visitou alguns países na África, Obama fez um post no FB indicando leituras importante para conhecer melhor o continente, confira aqui. Entre elas, Americanah, da talentosa e querida Chimamanda.

 

  

 

 

 

 

Sonhos

Foi durante uma corrida, tenho certeza, lembro até da rua por onde eu passava. Não estou certa de que foi a primeira vez que ouvi a música, mas foi quando chamou minha atenção. Começa com a cantora, Joan Osborne,  sussurrando, como se contasse um segredo: ”Sonhei com Ray Charles noite passada, ele enxergava bem”‘.  Então tem início “Spider web“, com uma batida contagiante, contando um sonho loucão  em que ela encontra Ray Charles e ele podia ver, mas não conseguia mais cantar; ficava só deitado assistindo à MTV (‘when you gain you just might lose’). Ray tira os óculos escuros e ela pode ver dentro da cabeça dele flashs, raios e a teia de aranha do título. Uma narrativa fantástica, emoldurada em uma percussão meio tribal; às vezes perece que ouvimos umas risadas ou pessoas falando ao fundo. Uma música incrível porque, além de boa,  consegue transmitir musicalmente a atmosfera onírica. E torna  agradável  uma  história que, se não chega a ser um pesadelo, tão pouco pode ser considerada um sonho bom.

 

Acho particularmente interessante porque, eu já disse aqui, a mim “os sonhos não brindam com ternuras e bons palpites, mas com angústias e reincidências”.  A frase saiu muito melhor que a situação; sou dada a sonhos que quase sempre parecem ou transformam-se em pesadelos. Nesse reino da fantasia e das mensagens que nunca consigo decifrar eu não tenho boas experiências. Para mim, uma boa noite de sono é sinônimo de apagão: pá-pum, deitou, dormiu, acordou, pronto. Invejo quem tem sonhos incríveis, engraçados, aventureiros, coloridíssimos ou em preto e branco. Ou quem consegue fazer do limão uma lemonade e, voilá, temos uma bela canção.

Por causa de “Spider web” fiquei pensando em outras semelhantes. Egressa que sou dos anos 80, comecei imediatamente a ouvir como um mantra “Sweet Dreams are made of this/ who am I to desagree?” , mas acho que o Eurythmics se refere aos sonhos da maneira mais recorrente, como algo que se deseja, e não como produto do inconsciente. Sobre isso há dezenas de canções, como a sessentista “California Dreamin” –  ainda que sobre essa eu tenha dúvidas:  a letra pictórica e sensorial  pode ser tanto uma lembrança real quanto imaginada.

Como eu dizia, encontrei em menor número as canções que falam de um “sonho sonhado“, como o que Martinho da Vila cantou, musicando poema de Carlos Drummond de Andrade – que, se não me falha a Danada, rendeu um desfile belíssimo da Vila Isabel. Esse sim, um sonho do qual não se quer acordar. E com certa ousadia, se a gente pensar que o samba é de 1980, quando ainda vigorava a ditadura militar no país:

Na limpidez do espelho só vi coisas limpas
Como uma lua redonda brilhando nas grimpas
Um sorriso sem fúria, entre réu e juiz
A clemência e a ternura por amor da clausura
A prisão sem tortura, inocência feliz“.

O samba de breque “Acertei no milhar” também fala de um bom sonho , quase altruísta; afinal, o autor pede que a mulher doe toda a roupa velha aos pobres, e eles irão viajar a Europa toda, até Paris. Só no final da canção Etelvina acorda Kid Morengueira e ficamos sabemos que “foi um sonho, minha gente”. Já Paula Toller teve mesmo um pesadelo ao sonhar que se atirava do 8o. andar. Assim como Elba Ramalho, que lembra ainda assustada que “vinha um trem de candango/ formando um bando/mais que era um bando de orangotango/ pra te pegar!”. Tão ruim que no final decreta: “Não sonho mais“! Décadas depois, o padrão de sono do Chico melhorou bastante, porque ele agora especula que deve haver “um lugar onde os sonhos são reais e a vida não “.  A sua “Moça do sonho” encanta, mas se evade sempre que ele tenta se aproximar: “Soprei seu rosto sem pensar /E o rosto se desfez em pó”. Para Gil, não é uma moça mas sim a “Menina do sonho“: uma “fada fadada a viver com seu corpo no nada” que não é personagem mas sim a responsável pelo nosso sonhar.

Para tentar escapar dos sonhos ruins, eu adormeço ouvindo a magistral Ella Fitzgerald e imaginando o cenário idílico de “Dream a little dream of me“. Vai que funciona?

Ouça a playlist completa no Spotify e contribua com sugestões nos comentários.

Our Ends Are Beginnings by ParadisiacPicture on deviantART 

Helê

 

 

 

 

 

 

 

(No mar) você nunca está sozinho

Putting the amazing size of Whales into Perspective

Mais um da série

Helê

Boas maneiras em tempos de crise

Com licença: nós queremos falar da “vaca na sala” que é o fato de boa parte da classe média que sofre, na qual nos incluímos, estar desempregada/subempregada/com pouco frila/sem frila.

Isso significa que tem muito mais gente do que você imagina sem dinheiro para frequentar restaurante-modinha, viajar nas férias, sair para uma tarde de compras com as amigas, ver todos os filmes interessantes em cartaz ou de vez em quando pegar um teatrinho porque ninguém é de ferro.

Talvez você tenha a sorte de ter um emprego fixo, ou frilas constantes. E talvez com isso você não esteja percebendo que a vida social do pessoal desempregado/subempregado/com pouco frila/sem frila (DSPFSF) não pode ser a mesma de antigamente, porque simplesmente esse pessoal não dá mais conta (ou nunca deu) de acompanhar, financeiramente, esse pique. Mas, claro, somos DSPFSF porém não perdemos o rebolado. Dificilmente a pessoa vai te dizer que não dá pra ir no restaurante-modinha porque a conta equivale à conta mensal do gás ou do celular. E que ela já teve que sortear uma das duas para pagar, não rola de gastar isso para comer três cogumelos fatiados com torradinhas requentadas e uma taça de vinho nacional barato em vez de cozinhar e tomar banho quente o mês inteiro.

Não.

A pessoa DSPFSF vai dizer coisas do tipo “esta semana estou meio enrolada”, ou, no máximo, “vamos esperar virar o cartão”. Mas creia: ela está falando isso porque não quer criar um constrangimento para você e para ela. Quando o cartão virar ela continuará sem dinheiro para o cogumelo pretensioso, e terá que inventar outra desculpa, ou acabará cedendo para não ser estraga-prazeres, mas deixará de fazer outra coisa talvez mais prioritária.

Então, qual é a saída? Abandonamos nossa vida social até nosso país voltar a ser minimamente viável?

Nananinanão. Isso a gente espera sentada, porque em pé cansa. Mas sentada bebendo com as amigas, que ninguém merece sofrer sozinha.

Então se você tem percebido que aquela amiga ou aquele parente não tem topado seus convites, ou tem relutado, ou tem tentado dar uma dica de que a coisa talvez esteja feita para o lado dele/dela, tem algumas coisas que você pode fazer para continuar criando oportunidades de encontros felizes e afetivos sem criar uma situação difícil para ninguém:

  • Em vez de jantar no restaurante-modinha, vocês podem almoçar em um quilo simpático, cuja conta provavelmente custará a metade do preço, mas a diversão será a mesma. Ou você pode simplesmente dizer: “eu convido, quero ter o prazer da sua companhia”.
  • Você pode propor um convescote em casa: “traz um pão gostoso que eu providencio o vinho e um queijinho”. O inverno é ótimo para ficar do lado de dentro.
  • Dá para organizar um chope online: todo mundo entra no Skype e cada um toma a sua cerveja enquanto põem os assuntos em dia.

Enfim, não faltam soluções criativas.

O que você não deve fazer, no entanto, é:

  • Esperar “o cartão virar” e fazer o mesmo convite novamente – se a pessoa não tinha dinheiro para ir no mês passado, a chance de não ter de novo este mês é grande.
  • Sugerir comprar no “parcelado”. Passar dez meses pagando por uma tarde (ou um fim de semana) de diversão não é legal.
  • Dizer que “este mês eu pago, mês que vem é você”. É uma forma sutil de convidar, mas de certa forma cria uma obrigação de reciprocidade que nem sempre poderá ser cumprida.
  • Parar de chamar a pessoa porque ela recusa sempre com uma desculpa. Seja sensível e tente incluí-la de alguma forma.

E bora ser feliz, porque estar junto com os amigos e a família não tem preço (ou não deveria ter).

Las Dos Fridas

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