Origens

Esbarrei nesse vídeo dia desses e fiquei impressionada com essas reminiscências do compositor. Acho notável que ele, tão jovem, tenha elaborado toda uma crítica social a partir da observação da impossibilidade de um amor. Claro que influenciado por uma família reconhecidamente progressista, por assim dizer. Mas a narrativa que ele faz é, antes de tudo, a elaboração individual de um menino. Acho que me identifiquei: já contei aqui que depois de adulta percebi que foi muito nova, por causa do Flamengo, que estabeleci meus primeiros conceitos sobre raça e classe.

Acho particularmente interessante que o Chico tenha feito essa construção (com ou sem trocadilho) em detrimento da figura paterna, de um tamanho enorme para uma criança. Na comparação entre o trabalho (fácil) do pai com o desagradável esforço do lixeiro, o menino identifica a injustiça que sofre o trabalhador braçal (e, por extensão, também a doméstica). E compreende a injustiça do mundo – uma dura lição que muita gente passa a vida inteira sem aprender. Diante dela, como não virar comunista ?

Curioso ainda que nesse episódio estão amalgamadas duas das temáticas mais recorrentes do compositor ao longo de sua extensa carreira: a desigualdade social e o amor. Parece que já estava tudo ali, desde muito cedo; depois ganhou sofisticação, requinte e beleza, talhados pelo talento único do Chico. (Vai ver a teoria do meu amigo Vitor está certa: que a gente já sabe quem é aos 12, 13 anos; às vezes dá uma volta danada na vida pra voltar a ser a pessoa que a gente sabia que seria naquela idade).

A babá, o lixeiro e seu romance interdito poderiam facilmente ser protagonistas de uma canção buarquiana. Ele encontra paralelo imediato com o pedreiro que espera o aumento desde o ano passado para o mês que vem; ela viu morrer alegrias e rasgar fantasias enquanto sonhava com o casamento. Ou cansou de ser babá e voou para a América, feito a Iracema que trabalha numa casa de chá. Talvez eles vivam anônimos em algumas músicas de Chico: posso vê-los gratos pela fumaça, desgraça, que a gente tem que engolir; mas prefiro imaginá-los correndo para praça cheios de ternura ao som da Valsinha. Porque graças àquele garoto que reparou num amor não realizado, eu posso sonhar com um outro destino para o casal. Afinal, talvez a vida não seja um fato consumado.

Helê

Este post vai pra Dorival Caymmi, João Gil…não, péra; vai pro Christian, me inspirou a escrevê-lo e é, além de grande fã do Chico, um mestre nas paródias infames e bem elaboradas; a esta altura já está imaginando a babá cantarolando “Olha aí, olha o meu gari, olha aí….” Feliz aniversário, Chris!

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Uma resposta

  1. Como eu imaginava, o mote gerou um excelente post, um dos melhores da safra recente dessa ótima ensaísta/contista/cronista – escritora, enfim – que é a nossa querida Helena. O parágrafo final é especialmente brilhante.
    Obrigado pela homenagem de aniversário!! Belo presente!
    PS: E desculpe o atraso na resposta. Não é malcriação nem desfeita. É caduquice mesmo…

    Que bom que você gostou!
    Estamos caducando todos, temos que ficar em asilos próximos, anote.
    Beijoca,
    Helê

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