Polaridade invertida

Esse período de campanha eleitoral é chato, toda hora tem debate, entrevista de candidato, o malfadado “horário eleitoral gratuito” (pago pelos nossos impostos, ou seja, de gratuito não tem nada), etc.

É chato. Mas é importante pra caramba.

Este ano, particularmente, a campanha no Brasil está atraindo as atenções até mesmo de especialistas internacionais, porque graças a algumas mudanças (assunto chaaaato, não vou entrar em detalhes aqui) na dinâmica da coisa, a propaganda política via mídias sociais supostamente terá um peso maior na divulgação dos candidatos e propostas.

No entanto, há muita gente da área argumentando que a inclusão digital no Brasil ainda está engatinhando, e que não dá para desprezar a força da televisão – pelo menos não em 2018.

(Eu particularmente acho que as mídias sociais podem fazer uma certa diferença nas eleições proporcionais; nas majoritárias, estou meio cética.)

Enfim, tudo isso pra dizer que assisti às cinco entrevistas dos candidatos ao Jornal Nacional – não porque quisesse saber mais sobre cada um, mas por curiosidade jornalística. Entender como cada candidato se saiu na entrevista ao Bonner e à Renata é, de certa forma, entender o que pode acontecer nas próximas pesquisas de intenção de voto.

Não sei quem ganhou mais simpatia dos eleitores, mas posso dizer que na minha opinião quem perdeu, de novo, foi o jornalismo careta da Globo. A emissora continua toda-poderosa, disso não tenho dúvida; por quanto tempo é que é a questão. A impressão que dá é que, por mais que tentem inovar em cenários giratórios e repórteres falando “tá” em vez de “está”, as cabeças pensantes da Globo estão longe de entender a nova lógica que vai se consolidando nos corações e mentes das novas gerações.

A dinâmica das entrevistas é muito ruim. Os âncoras do JN confundem jornalismo “combativo” (seja lá o que isso signifique) com jornalismo “pegadinha”. É uma técnica de entrevista acusatória, em que eles pesquisam possíveis “cascas de banana” e jogam aos pés do/da candidato/a. Como se fazê-los escorregar fosse sinônimo de “revelar” as contradições em seu discurso.

O problema é que esse formato não ajuda o eleitor a decidir. Pelo contrário . Só reforça a sensação de que nenhum político presta – ou, em muitos casos, a ideia de que o candidato é perseguido pela grande imprensa porque “diz as verdades” (está aí a vitória de Trump que não me deixa mentir).

Ao nivelar todos os políticos por baixo, cria-se um clima de que não adianta votar porque o jogo já está dado. E isso, convenhamos, não contribui em nada com o processo eleitoral. A história recente tem montes de exemplos de niilismo levando ao fascismo.

Acho que os âncoras do JN prestariam um serviço jornalístico muito mais relevante se abandonassem o tom “nós contra eles ” e perguntassem sobre o que cada candidato/a pretende fazer, realçando as inconsistências nas propostas e, claro, explicitando as questões sobre as quais as campanhas não querem lançar luz, como envolvimento em casos de corrupção, tráfico de influência, etc. No entanto, isso precisa ser feito com a polaridade invertida – uma conversa (pro)positiva, e não negativa.

Apontar incoerências e malfeitos dos políticos é uma das principais funções do jornalismo, sem dúvida. Mas da forma como está sendo feita, tenho sérias dúvidas se está funcionando.

-Monix-

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