Ideias e argumentos

Há uns dois anos atrás, tive alguns (poucos) alunos particulares de Redação, que estavam se preparando para o Enem. Foi então que eu aprendi (e passei a ensinar) que hoje em dia todos os alunos do Ensino Médio precisam fazer redações segundo um modelo chamado “dissertativo-argumentativo”. A redação no Enem é eliminatória, ou seja, quem tirar zero nesta prova pode saber todas as Físicas e Matemáticas do mundo, mas não poderá cursar a faculdade de Engenharia (pelo menos não com a nota do Enem).

As bancas avaliam, nos textos, cinco competências, sendo que duas delas são: a) selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista; e b) elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos.

Fico pensando que, uau, será mesmo que teremos uma geração de pessoas capazes de sustentar um ponto de vista através de argumentos? (Infelizmente minha experiência direta com jovens não necessariamente confirma essa hipótese, mas estatisticamente as nossas experiências diretas todas, somadas, não significam nada.)

Enfim. Não seria lindo? Que as escolas conseguissem ensinar as novas gerações a, em primeiro lugar, saber qual é seu ponto de vista sobre os temas do mundo real, a ter opiniões sobre a vida, o universo e tudo mais; e, em segundo lugar, a sustentar esse ponto de vista por meio de argumentos? (Sendo que esses argumentos não podem ferir os direitos humanos!)

Foto: Pixabay

Escola é escola em qualquer canto…

Discutir ideias por meio de argumentos pode parecer que é o óbvio, mas vamos lá… quantas situações vocês são capazes de lembrar em que as pessoas confundiram argumentos com sarcasmo; argumentos com ataques ad hominem; argumentos com uma negação do fato, sem apresentação de evidências (não é porque não é). Ou, ainda, que confundiram informação com opinião.

Na minha geração (e nas mais velhas), conheço inúmeras pessoas que, de modo geral, estudaram nas melhores escolas do Brasil, e são incapazes de construir uma discussão a partir de argumentos. É uma competência perdida para muitos de nós. O mundo digital certamente não contribui para melhorar isso, mas, sei lá. Vai que as escolas – aquelas instituições que se mantiveram praticamente iguais nos últimos 200 anos – é que trarão uma parte da solução? Vai que, no fim das contas, o século XIX é que vai nos salvar?

-Monix-

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