Ao mestre, com todo carinho

Acreditando no poder do afeto, no Dia do Professor enviamos todo o nosso carinho para Thiago dos Santos Conceição, que mesmo desrespeitado e ameaçado em sala de aula, saiu do episódio reforçando sua crença na educação e interpretando o condenável comportamento dos alunos como um pedido de ajuda.

Somos, nosostras, filhas de professoras. Ficamos muito tocadas com a situação do professor Thiago, que teve alguma repercussão aqui no Rio de Janeiro mas foi rapidamente esquecida tanto pela velocidade dos acontecimentos quanto pelo noticiário eleitoral. A situação vivida por ele destampa uma panela de deficiências no ensino que a classe média, que pode pagar (com maior ou menor sacrifício) por uma escola particular, nem sabe que existe. Escolas sem orientação pedagógica, professores sem apoio de nenhum tipo, o adoecimento e consequente evasão desses profissionais foram apenas alguns dos problemas evidenciados nessa situação do professor Thiago. Que tal a gente discutir questões reais como essas, ao invés de kits imaginários?

A propósito: entre o milico e o professor não temos a menor dúvida sobre a resposta certa. Parabéns pra você também, Prof. Haddad!

Las Dos Fridas

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Resistirmos – a isso se destina

A foto de dois homens brancos exibindo uma placa quebrada, com o nome de Marielle Franco, comemorando como um troféu. Uma das muitas violências que vivenciamos nessa campanha eleitoral reveladora. Escárnio sem pudor nem respeito pela dor alheia, a barbárie materializada e naturalizada.

Além de tuítes e posts indignados (pelo menos na minha bolha, glória a deux!), veio de uma trincheira do humor uma reação rápida. Cerca de meia hora depois de ver a foto acintosa, soube da campanha de arrecadação do Sensacionalista para produzir novas placas. Compartilhei a arte que dizia “Eles rasgam uma, nós fazemos  100”; acrescentei na legenda: “Ou mil”.

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Ontem fui à Cinelândia, junto com minha filha, para a distribuição das  placas – mil foram feitas (e poderiam ter sido muito mais). Não sabíamos muito bem como seria, nem se conseguiríamos. Estávamos com medo. Mas decidimos ir porque precisávamos. Por Marielle, por nós.  Para responder à agressão dos bolsonaristas. Para resistir. Mesmo que a gente não saiba como, nem se conseguiremos.

O clima era muito diferente de duas semanas atrás, quando o #Elenão arrastou milhares de pessoas para a Cinelândia. Não havia festa, bandeiras, alegria. A minha gente hoje anda falando de lado e olhando pro chão (de novo). Havia o receio de que o ato pudesse atrair os intolerantes raivosos que andam se sentindo à vontade para ladrar em público.

Mas havia esperança, nem que fosse só de conseguir uma plaquinha. Entramos uma fila enorme, que formava um quadrado em frente à Câmara, fazia uma volta em frente ao Municipal e se estendeu, soubemos depois, até o Odeon. Tinha muito mais gente que placa e não havia ninguém controlando a fila. Mas não ouvi reclamação, não vi empurrão, tumulto zero.

No horário marcado, a fila começou a andar. Claudio Luiz se juntou a nós e a conversa ajudou a controlar a ansiedade. Ao chegar a minha vez, recebi a placa das mãos da Mônica Benício , viúva da Marielle. Olhei para ela e não consegui evitar nem as lágrimas, nem o impulso de lhe dar um abraço.

Abracei outras tantas pessoas que encontrei, dizendo com o corpo o que as palavras não davam conta. Aos poucos, o clima ficando mais relaxado. Encontramos vários amigos, de diferentes escaninhos da vida. Identificamos parlamentares, artistas, gritamos palavras de ordem, aplaudimos a Mônica colando (temporariamente) uma placa na esquina da Câmara – o avesso do gesto dos brucutus acéfalos. Dei entrevista.  Emprestamos nossas placas muitas vezes, fotografamos, fomos fotografados. A cena da mãe ensinando ao filho quem foi Marielle. O cara segurando uma long neck e combinando um encontro, cariocamente: “Ó, me liga, vamo marcá lá!”. O moço do Recife com a ótima camisa da Ursal, o Urso no lugar do Guevara.  A moça com o bebê. Um mosaico de imagens belas, fofas, divertidas, amorosas.  No fim das contas,  a gente saiu mais alegre, com menos de medo, o coração mais quentinho, e a certeza de que Marielle virou mesmo semente. E temos que semear.

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Helê

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