Minas

  • La Otra já contou* que andei pelas Minas Gerais, então vou fazer este post mistura de ‘pastilhas’ e ‘diarice’, porque é o que temos no momento. Está sendo difícil retomar o rumo, o prumo e a escrita depois dessa eleição inimaginable (nas palavras de uma francesa atenta e querida). Eu já nem lembro pronde mesmo que vou, mas vou até o fim (Chico Buarque®).

 

  • Essa foi uma viagem programada muito antes das eleições e de seu desfecho infeliz. Eu e meu amigo J. nos encontramos no dia 30 de outubro, ambos com o hematoma da desilusão grande e recente em nós. Poderíamos ter desistido, mas seguir adiante foi nosso primeiro ato de resistência – se não à ditadura, pelo menos ao desânimo (o que, convenhamos, não é pouco).

  • Conheci Ouro Preto em outro século, durante um carnaval – eu ainda era universitária e magra, veja você. Outra vida. Voltei décadas depois e encontrei uma cidade encantadora, acolhedora, altiva,  surpreendente. Desta vez visitei igrejas e museus, entrei numa mina desativada, conheci o Teatro Municipal, mergulhei em arte e história. Devo ter comido o equivalente a um pequeno leitão em forma de torresmo e provei muitas cachaças e cervejas, porque eu entendo cultura e arte num sentido beeeem amplo e saboroso. 

 

  • Um destaque? Os guias. Pode ser que a gente tenha tido sorte (em alguma coisa havemos de ter, oras!). Mas o fato é que não esbarramos em meninos engraçadinhos recitando datas e textos decorados. Encontramos guias turísticos bem preparados, com narrativas que fugiam dos discursos chapa branca. Mais que isso: que destacavam o protagonismo dos negros na trajetória da cidade e, por extensão, do país. Ouvi várias vezes a correta expressão  “africanos escravizados”. E aprendi coisas incríveis sobre o aproveitamento do conhecimento prévio de arquitetura, logística e mineração desses trabalhadores. 

  • Em São João del Rey encontramos a melhor cervejaria da viagem,  Ovelha Negra, a melhor anfitriã de AirB&B e vivemos uma experiência inacreditável para um paulista e uma carioca: dormimos de janela aberta numa casa de rua, sem muro. Mind blowing.

 

  • São João conservou (e bem) seu centro histórico e continuou a ser cidade em volta dele. Já Tiradentes parece toda ela uma cidadezinha de boneca, toda lindinha, conservada e…cara. Colada em uma serra imponente, deve ter trilhas e passeios interessantes que não tive tempo de fazer. A Maria Fumaça que liga as duas cidades só fez  aumentar a minha vontade de viajar num trem de verdade.

  • Em Belo Horizonte, a saudade e o cansaço já pesavam na mala. Mas aí, laralá, lirili, encontrei com amigas geniais que tornaram tudo leve e amoroso. Compartilhamos angústias e desilusões – além de gargalhadas e cervejas. Nesse momento de incertezas variadas e medos difusos, reafirmar afetos foi restaurador. Como já disse em outro lugar, as minas mais preciosas estão em BH. 

 

  • No mais, colocar uma mochila nas costas e viajar pelo interior do país aos quase 50 anos pode fazer muito bem para sua autoestima. A minha voltou mais robusta. 😉 

 

Helê

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