Desistir/insistir

Tenho dificuldade em deixar coisas pelo caminho, unfinished business me assombram. Essa característica, na maioria das vezes positiva, tem um lado desagradável, que é me manter presa ao que não me dá prazer. Oscilo entre a curiosidade sobre onde aquilo vai dar e a obrigação muitas vezes auto imposta de ir até o fim. Há situações em que pagar pra ver vale a pena; em outras o preço pode ser alto.

Foi o caso da última temporada de House of Cards, por exemplo, oito episódios de desperdício de dinheiro e bons atores. Na verdade, a série já tinha perdido a mão lá pela 3ª ou 4ª temporada, e o Kevin Spacey dificultou a vida dos roteiristas sendo um cretino em sua própria. Então essa 6ª temporada foi como certos relacionamentos: tinha tudo pra dar errado — e deu. Insisti porque tinha a sensação de que perderia algo se não fosse até o fim. Acabei perdendo: meu tempo. 

Minha amiga C. abalou minha conduta ao advogar exatamente contra a perda de tempo. Ela diz que larga um livro sem piedade quando ele não diz logo a que veio (eu tenho pressa e tanta coisa me interessa toca na Rádio Cabeça).  C. me disse isso justo quando eu estava lendo um livro que não estava agradando. Pensei em parar mas quando vi que estava na metade, decidi ir adiante. E que decisão acertada!

A história de Okonkwo, guerreiro de uma sociedade africana pré-colonial, patriarcal e religiosa era apenas interessante, não conseguia me envolver. Até a chegada do homem branco. De uma maneira sorrateira e rápida, tendo a religião como instrumento, acontece uma transformação profunda e definitiva naquela sociedade. Nunca um título foi tão adequado quanto esse “O mundo se despedaça”. E só no contraste produzido pelo choque entre as culturas percebi a riqueza dessa história que se passa na África antes de ser África — essa invenção de invasores –, e do ponto de vista de quem já estava lá. Nesse caso, ir até o fim foi necessário e recompensador, a narrativa só se revela plenamente ao final.

(Aí na semana passada, quando li a notícia sobre o suposto missionário que foi morto a flechadas ao tentar fazer contato com um povo que há séculos vive isolado, só pude sentir simpatia pelos nativos.)

***

Diante desses episódios recentes, sigo librianamente indecisa sobre ir adiante com o que não parece promissor. Should I stay or should I go?

Helê 

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4 Respostas

  1. Em se tratando de obras de arte em geral – livros, filmes, peças, séries de TV, exposições, jogos de futebol (?) etc. – quase sempre vou até o fim. Na maior parte das vezes pelo prazer revanchista de reclamar, xingar, difamar, amaldiçoar, criticar e odiar publicamente aquilo que me fez perder tempo, dinheiro e paciência, evitando que a coisa faça outras vítimas. Foram poucos os livros, filmes e peças que abandonei no meio, e felizmente me esqueci de todos. O que me intriga nessa história é: por que diabos alguém escreve um livro, monta um filme, roteiriza uma peça ou cria outra obra qualquer de forma maçante, cansativa ou ininteligível para quem lê/vê/assiste?

    Por isso eu sou…vingativa, uhuh, vingativa! (Lembra disso? Frenéticas, mil novecentos e cof cof). Christian, aquele que ama odiar 😀
    Brincadeiras à parte, ainda bem que você usa seu desagrado para alertar incautos, podemos dizer que é pelo bem maior.
    Beijo grande, querido.
    Helê

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  2. Digo por aí que me libertei da obrigação de terminar toda leitura que começo. Mas entre quatro paredes, ah, que sofrimento. É raríssimo desistir. Que bom que nesse caso de seu post a insistência foi recompensada. (Te entendo perfeitamente.)

    Segura a minha mão, Rita! 🙂
    Tem o decálogo do Daniel Peniac – cujo livro, aliás, tenho e não li – que nos desobriga a ler até o final. E eu, como você, acho libertador e correto, mas na hora de aplicar… muita culpa cristã pra gente se livrar, né? Pelo menos não estamos sós 😉
    Beijocas,
    Helê

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  3. eu sempre fico nesse dilema, mas sempre acabo terminando o que comecei. nem que seja para detestar, porque pelo menos vou saber do que a coisa se tratava, no fim das contas. que bom que engatou na leitura! adorei a capa do livro. pelo jeito você foi votar com ele nas mãos? hehe

    Observadora, heim, Helen? Cortei a foto mas mesmo assim você percebeu… Sim, fui votar com ele – estou entre os que preferiram o professor ao capetão. Naquele dia ainda estava na fase chata da leitura, mas o título me parecia adequado ao que estava por vir. Mesmo que a gente não esteja encarando uma ruptura como a descrita no livro, há mais semelhanças do que eu gostaria, como a ação insidiosa da religião na dinâmica social.
    Beijo pra você, obrigada por comentar. Volte sempre – a casa é nossa!
    Abração,
    Helê

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