Mulherio

Digamos que, além da solidariedade de  classe, eu tenho um carinho especial pelas mães argentinas porque me lembro das Loucas da Praça de Maio. Renovei esse afeto ao ver a entrevista  de D. Mercedes, que eu já havia citado aqui, a mãe do jornalista Ricardo Boechat.

Antes de explicar o porquê, preciso dizer que me mantive distante do noticiário e só assisti ao vídeo porque foi enviado por uma amiga. Sendo ainda mais sincera, fui ver até com certa má vontade porque uma frase dita por d. Mercedes sobre o ateísmo do filho já tinha sido cansativamente debatida no tribunal da internet.

Mas A. mandou para o nosso grupo que é a fina flor do uatizápi (sorry, periferia), onde raramente circula algo que não seja relevante, emocionante ou engraçado pra cacete. Então eu comecei a assistir e em segundos estava chorando as lágrimas que eu economizei porque vi uma senhora de 86 anos lembrando do seu filho quando nasceu, depois com dois meses, depois com quatro, cinco, anos. Comovi imediatamente com essa constatação de que a gente não deixa nunca de ser mãe, sempre vai vê-los como os bebês que foram, no matter what. Que ternura.

Segui acompanhando essa mãe falando orgulhosa de seu filho, surpresa com o tamanho da sua popularidade e satisfeita com o caixão simples adornado com o bigurrilho do táxi, que para ela comprovava a simplicidade do Boechat e tal e coisa. Aí ela começa a se exaltar, falando a favor do povo e contra os poderosos, da mesma maneira genérica e colérica que seu filho morto. Quase um comício ou um editorial, de que se esperava só sofrimento e contenção. O vídeo, tocante e divertido, realmente atendia aos requisitos para estar no nosso grupo do whats.

*

E como acontece com frequência, eu aprendo muito quando escrevo: fui tirar a dúvida sobre o nome do grupo de mulheres. Eu tinha essa lembrança bem antiga, talvez da minha infância, de serem conhecidas como “As Loucas da Praça de Maio”. E a memória não me traiu: esse foi o primeiro nome pelo qual mães e avós de desaparecidos políticos argentinos ficaram conhecidas. Não exatamente pela bravura, mas porque, como sabemos, qualquer manifestação feminina fora do que espera o patriarcado — como desejo ou coragem —  recebe imediatamente o selo da loucura. Há poucos anos elas voltaram às manchetes quando conseguiram localizar netos desses militantes assassinados pelo regime que foram separados das famílias.  Se você não conhece a incrível história dessas mulheres latino-americanas, leia esse artigo da Sylvia Colombo, que dá uma boa ideia da importância delas para a sociedade argentina, capaz de enfrentar os terrores de sua ditadura  punindo militares e prestando conta de seus desaparecidos.

Ainda falando de mulheres f*da e voltando ao assunto Boechat, impossível não falar da Leilaine Silva, a mulher que ajudou a salvar o caminhoneiro envolvido no acidente. Em que pese ela ter agido por impulso, contrariando regras de salvamento, prefiro louvar o impulso de alguém que salta de uma moto para socorrer um ferido do que o grupo de imbecis cujo impulso foi sacar o celular e filmar. Nessa matéria, veja a ilustração de Angelo France que viralizou, enaltecendo o gesto de Leilaine.

Helê

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