Precisamos não falar sobre isso

Na época da Guerra Fria, a antiga União Soviética se utilizava de técnicas de propaganda com o objetivo de fazer seus alvos agirem de acordo com seus interesses, mesmo sem perceber. A partir de 2008, essas técnicas começaram a ser adaptadas para o ambiente digital , até que em 2014 os russos finalmente chegaram a um novo modelo de propaganda, que foi chamado, por especialistas em segurança, de firehose of falsehood (“jato de falsidades”), em referência ao jato d’água provocado pela mangueira de pressão usada pelos bombeiros.

Mas por que essa analogia com a mangueira dos bombeiros?

É que a técnica do jato de falsidades (ou seria a mangueira da falsiane? Decidam aí) se caracteriza por usar um grande número de canais para distribuir um número ainda maior de mensagens, em geral verdades parciais ou mentiras. A propaganda do jato de falsidades é rápida, contínua, repetitiva e não tem compromisso nem com a coerência, nem com a realidade objetiva. É como se a gente estivesse constantemente levando um jato d’água na cara, sem conseguir reagir direito. Tipo nocaute técnico.

Foto: Tristin English, via Scott Air Force Base

Os especialistas que descreveram esse fenômeno explicaram que embora quem usa a tática não tenha compromisso com a verdade, isso não significa que tudo o que eles compartilham seja falso.

E agora a gente faz uma pausa para perguntar: tá parecendo com alguma coisa que vocês viram acontecer recentemente aqui no Brasil?


Pois é. A campanha eleitoral do ano passado foi um caso que provavelmente no futuro será estudado como um clássico do jato de falsidades.


Só que, gente, a campanha já acabou! E nós temos um problema: um governo que adota o jato de falsidades como método. Precisamos entender isso o quanto antes, se não quisermos passar os próximos (quatro-oito-seiláquantos) anos correndo atrás de desmentir absurdos ou questionar batatadas do presidente e da primeira-família. O clã e seus asseclas assumiram o governo e continuam muito eficientes no uso da tática. Diariamente, eles atiram várias informações desconexas para todos os lados, intensa e continuamente, confundindo a oposição. Estão nos nocauteando com informação e contra-informação. Enquanto a gente passa três dias protestando contra as comemorações pelo golpe, ou pela aparente maluquice de afirmar (em Israel!) que o nazismo foi de esquerda, eles estão preparando um pacote, vejam só, que prevê “retirada de barreiras regulatórias para o melhor funcionamento do mercado. Os setores que passarão por ajustes regulatórios são: saneamento, propriedade de terras, óleo, gás, medicamentos, planos de saúde, bancos e comunicações.” Legal, né? Indústria farmacêutica, planos de saúde e setor bancário com menos regulamentação. É bem disso que estamos precisando.

A gente sabe que é muito difícil não cair nas armadilhas do jato de falsidades. Afinal, como não falar sobre certos temas? Como não se indignar com essa gente que insiste em tentar ressignificar o passado como tática para obscurecer o presente?

Tem gente muito qualificada, no mundo inteiro, tentando descobrir como desmontar a tática do jato de falsidades. Não temos a pretensão de descobrir a fórmula mágica que vai salvar o Brasil dos mentirosos malvadões. Mas a gente só queria dizer pra vocês que estamos cansadas. Não dá para passar a vida repetindo o óbvio, disputando narrativas sobre coisas que já passaram, e que são sofridas, e que, pior ainda, são apresentadas numa linguagem espetacularizada, como se estivéssemos falando de um episódio particularmente tenso de uma série da Netflix.

Não, gente. É a vida real, é um passado até bem recente, são feridas mal cicatrizadas que inclusive ameaçam infeccionar.

Então a gente tem pensado muito sobre tudo isso, e por mais complexa que seja a saída, de uma coisa a gente tem certeza: precisamos falar menos sobre o que eles querem que a gente fale. Precisamos buscar formas de recusar sermos pautadas pelo outro lado. Vamos falar do que a gente gosta, do mundo que a gente quer, das coisas que a gente acredita. Vamos?

As Duas Fridas

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2 Respostas

  1. Que governo faz uso desse jato aí? Refere-se ao governo Bolsonaro? Tá de brincadeira, né? Os mestres disso aí foram Lula, Dilma e Haddad. Olha o jato de falsidades embutido no texto!

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  2. Uma ótica realista, verdadeira e dignina de aceitação. Parabéns!

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