Rabugices & implicâncias

Pode ser que a idade esteja me deixando mais ranzinza ou apenas removendo meus filtros (estágio da vida também conhecido com Síndrome de Dercy Gonçalves, quando você acha que a idade é salvo conduto para sua personalidade. Perigoso ou divertido, depende da narrativa). Mas a verdade é que me sinto cada vez mais sem paciência para certas coisas, e reviro os olhos tão forte que me doem as órbitas. São várias pequenas coisas, entre as quais agora me lembro dessas:

 
– a expressão apreender menor, para falar da prisão de infratores crianças ou adolescentes. Não, apenas não. Você apreende cocaína, carro roubado, 15 quilos de ecstasy, você não apreende uma pessoa. (E quase se esquece do que se trata – pessoa – usando apenas um adjetivo que determina que ela é menos que… qualquer um, um menor). Inventaram isso de “apreender”  de uns tempos pra cá e deve ter alguma razão, mas nunca me apresentaram nenhuma e como eu gosto das palavras, defendo suas funções e significados. Se a prisão de um menor de idade é diferente da de um adulto, ele não pode ser detido, recluso, internado, até recolhido (que também não me agrada), no melhor dos mundos, acolhido? Apreendido é droga, arma e bicho – é disso mesmo que estamos falando?


– Profissão: criativo. Puta.que.pariu. Desculpaí, mas eu não consigo ler ou ouvir isso sem uma reação intensa, que varia entre um palavrão e uma gargalhada. Porque pra mim situa-se entre a arrogância e a completa falta de noção. “O que você faz?” “Sou criativo.” Eu tenho vontade de responder: “eu sou honesta. Eu queria mesmo ser bonita, mas a relação candidato/vaga…”. Imagina se os médicos resolverem agora  que se chamam salvadores. Então você nomeia a sua função com a qualidade mais apreciada na sua profissão? Isso me parece uma jogada publicitária…ruim, muito ruim.

– o que me leva a outra roll my eye balls muito forte: propagandas de entidades assistenciais. São todas dolorosamente deprimentes e eu tiro do canal todas as vezes que elas começam. As músicas são tristes, as imagens pavorosas, são sempre loooongas demais e quando o controle some e você não consegue tirar do canal, esses comerciais só conseguem me provocar pena e culpa por não estar querendo ver aquilo. Nunca vi um sequer que tenha me motivado a fazer uma doação, e todas essas instituições fazem trabalhos inquestionavelmente importantes: Médicos sem Fronteiras, Action Aid, Unicef, todas elas vão a lugares onde governos não chegam e realizam o trabalho que ninguém quer fazer. Mas a propaganda que fazem é péssima porque não estabelece empatia com o público, e causa incômodo. Até nós, consumidores, já descobrimos que a propaganda lida com emoções. Vender tênis e cerveja: ok; engajar pessoas em doações humanitárias está na coluna de desafios. Eu não sei como fazer , mas eu fiz jornalismo e não publicidade – cadê o criativo quando a gente precisa dele?

Helê

PS: Amanhã é aniversário da Monix, depois não vale dizer que não comprou presente porque não sabia….

Anúncios

Uma resposta

  1. Quero me associar, de olhos revirados, bochechas bufantes e puta que pariu na ponta da língua, à rabugice contra a inacreditável, inaceitável e insuportável expressão “apreender menor”. Não passa de um eufemismo cínico, uma suposta tentativa de amenizar uma situação que é terrível – a detenção – contra um ser humano ainda em formação – que, no caso de envolvimento com atividade ilegal, deixa de ser criança/adolescente/jovem para receber a pecha de “menor”. Essa expressão é irmã de outra idiotice eufemística, não menos cínica, que é a “menor em conflito com a lei”. Haja saco. Já as peças publicitárias do MSF e da Unicef são propositalmente criadas para impactar, comover e incutir culpa (ou pelo menos um leve mal estar) nos inocentes do Leblon. Sou do Catete, e culpadíssimo, como se sabe, mas já doei algumas vezes depois de receber as correspondências do MSF, especialmente sobre as situações gravíssimas de alguns países africanos. E aí mexe com meus genes, não tem jeito de não abrir a carteira. Quanto aos “criativos”, penso que se trata apenas de publicitários fazendo propaganda de si mesmos. Dependendo do interlocutor, propaganda negativa….

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: