Cabelo, cabeleira, cabeluda

Three on One by Annie Lee

Hoje pela manhã li sobre a defesa da tese “Esse boom é nosso?”, orientada pela queridíssima Laura Guimarães (da dupla inventora do Mothern). Fiquei curiosa para ler o trabalho, lembrei de Ângela Figueiredo, minha ex-colega de trabalho no Afro-asiáticos, a primeira acadêmica que vi escrevendo sobre cabelos e seu significado para afrodescendentes, mais de 20 anos atrás, e pensei no quanto caminhamos até aqui, no quanto a mudança de alguns paradigmas para negros passou pela cabeça das mulheres negras.

Eu gostaria de usar uma palavra mais enfática como revolução, mas nem tanto, mestre, nem tanto. Se houve uma revolução dos cachos ela se restringe ao mercado de produtos capilares. No Brasil nunca houve oferta tão farta de produtos para cabelos crespos e ondulados – na real, há 30 anos não havia nenhuma, at all. Mas isso significa, na vida real dos pretos, no máximo, uma mudança de paradigma, como eu disse acima. Já não é tão difícil usar o cabelo sem alisamento but, ainda levanta muitas sobrancelhas, e o padrão branco liso moveu-se poucos centímetros do seu local de centralidade e idealização. Somos agora mais toleradas — em parte como uma tendência fashion, apenas.

Como consumidora, eu me beneficio das muitas opções a meu dispor, e boicoto sistemática e ferozmente as marcas tradicionais do mercado que, durantes décadas, me fizeram sentir inadequada por não tem um cabelo de seda, liso (e muitas vezes louro) como mostravam seus rótulos. Essas mesmas marcas agora aparecem oferecendo linhas inteiras para cachos e crespos, prometendo definição, brilho, volume… Não, obrigada, eu sei o que você fez no verão passado. Por isso faço questão de comparar marcas que sempre trabalharam com esse público, de preferência nacionais, de preferência gerida por pretos, porque acredito no conceito de black money: se não me vejo, não compro.

Helê

 

Anúncios

Utilidade pública

Achei que devia avisar.

Helê

%d bloggers like this: