Alta ajuda

Um dos grandes segredos de Fátima revelados na vida adulta é o altíssimo grau de romantização da vida a que somos submetidos, e o quanto isso atrapalha as relações, atrasa soluções, cria expectativas às vezes impossíveis — quando atitudes outras, mais simples e acessíveis, poderiam ser suficientes. Digo ‘romantização da vida’ porque acontece em todos os aspectos (e não apenas as relações amorosas): aprendemos a valorizar um modo específico de expressão do afeto, em geral instintivo, sem palavras, quase mágico. Então os melhores amantes são os que advinham o que você precisa sem que você tenha que dizer; os verdadeiros amigos, ou pelo menos os mais preciosos, entendem como você se sente sem que seja preciso explicar: basta uma troca de olhares e, pimba, a conexão suprema entre vocês foi suficiente para saciar suas necessidades emocionais.

 

Mas na vida real as conexões falham — e nós também. Vivemos inundados de informação e afazeres e boletos, desatentos e sobrecarregados. Condições  que não podem, de forma alguma, ser naturalizadas, mas cuja supremacia não podemos deixar de notar. Por isso quis vir aqui dizer que se você precisa de atenção, cuidado, apoio de alguém de quem gostaria ou esperava, peça. Não de um jeito torto, meio brincando, meio sério, com indiretas. Peça ajuda, diga o que precisa, aceite e expresse a sua necessidade claramente, dê-se a chance de ser ouvido. Não vou mentir: não é uma receita infalível e pode até não funcionar. Mas se você não tentar, jamais saberá, nem dará ao outro a chance de estender a mão, pagar um chopp, carregar uma caixa, estar com você. Admitir que estamos vulneráveis é o primeiro passo para deixar esse lugar desconfortável.

Helê

 

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