O adeus a uma tradição

Tudo começou um tempo atrás, quando durante um conversa com meu filho e sobrinhos me dei conta de que eles nunca conheceram algumas paradas obrigatórias da gastronomia tradicional do Rio de Janeiro (leia-se: restaurantes que já foram importantes outrora, mantém um cardápio nostálgico, a estrutura física super deixa a desejar e o serviço é uma porcaria – ou seja, welcome to Rio).

Um desses tesouros da nostalgia gastronômica de que falávamos era o Bar Luiz, na rua da Carioca. Ficou a promessa de que os levaria para conhecer o famoso bife à milanesa com salada de batatas e o imperdível strudel com creme.

Aí veio a notícia – que não chegou a ser uma surpresa: sábado será o último dia de funcionamento do Bar Luiz. Depois de 132 anos, é hora de dar tchau.

Daí foi aquela correria: ajustes nas agendas de todo mundo, etc, pois não podíamos perder a última chance. Ontem chegaram notícias de filas enormes. Claro. Mesmo assim não desanimamos. Os adolescentes precisavam conhecem o lendário Bar Luiz.

No meio do caminho tinha uma fila

Na chegada o cenário não era muito animador. A turma do início da fila estava esperando há cerca de uma hora. Mas quem nunca teve um golpe de sorte na vida? Eis que chega o gerente perguntando: qual é o primeiro grupo de mais de quatro pessoas? Acabou de vagar uma mesa maior e é melhor acomodar um grupo do mesmo tamanho.

Adivinha? Éramos cinco (quase um romance).

Bem, lá dentro as coisas estavam um pouco confusas. A milanesa já tinha acabado, fomos de rosbife. O barulho ensurdecedor de sempre nos impediu de entender totalmente o que o garçom dizia, mas basicamente o Bar teve que recrutar 10 garçons do Otto para ajudar no serviço.

E assim contabilizamos mais uma baixa nesse momento decadance sans elegance

Na verdade, dentre as coisas que o garçom disse, entendi trechos incongruentes como “Bar Otto”, “Tijuca”, “não conheço o cardápio, por favor informe o número”, “fechar”, “15 dias”, “reabrir”. Talvez isso signifique alguma coisa, talvez não. Fica aqui o registro de que eu talvez tenha perdido um excelente furo jornalístico por pura inabilidade social na conversa com garçons.

Bem, o strudel com creme também ficou só na nossa memória e na fantasia dos meninos – todas as sobremesas já tinham acabado. Para não perder a viagem, fomos comer uns docinhos na Confeitaria Colombo.

É triste se despedir de uma tradição. O Bar Luiz era caro, o serviço demorado, o ambiente barulhento, mas nós somos cariocas e gostamos desse charme meio decadente, meio soberbo, que só o Centro da cidade pode nos proporcionar. A rua da Carioca é uma lamentável metáfora de tudo o que vem acontecendo com a cidade nos últimos anos. Talvez ela sempre tenha sido, na verdade.

-Monix-

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