Mão dupla

Sair da maternidade levando minha filha nos braços foi uma das muitas alegrias do nascimento. Porque a família havia vivido, poucos anos antes, o drama de um parto prematuro e do vazio abissal que sente um mãe que volta pra casa sem bebê. Então eu me lembro nitidamente de voltar pra casa muito feliz no banco de trás do carro, conversando com a Juju e mostrando as coisas pra ela no caminho: “Aqui é o Rio de Janeiro, minha filha, aquele ali é o Redentor, ali é a Marquês de Sapucaí onde tem o carnaval, você vai gostar….” Soube ali que essa seria uma das coisas bacanas de ser mãe, mostrar o mundo pra filhote. Ela só tinha olhos pra mim àquela altura, mas acho que aproveitou o tour.

Dezesseis anos depois eu estou com essa moça alegre e bonita ao meu lado, chamando atenção por onde passa nas ruas de Manhatan. Mostro a ela a Central Station, a Biblioteca Pública de Nova Iorque, a igreja de Saint Thomas; vamos da alucinação do Times Square ao silêncio respeitoso do World Trade Center Memorial. Juntas descobrimos e admiramos a Catedral de São Patrick – mas é no culto batista do Harlem que ficam nossos corações e mentes. Circunavegamos a ilha e subimos ao topo do Empire; compramos como nunca, sorvemos cultura em grandes goles; as perguntas brotando como lenços de uma caixa de papel: uma puxa outra que puxa outra, numa sequência sem fim. Ela agora só tem olhos para o mundo, mas ainda me ouve. Também me mostra e ensina coisas, e então a maternidade, essa mão dupla de amor, proporciona esse tour inesquecível em muitos sentidos. Estabelecemos com a cidade um forte laço afetivo; reforçamos de maneira singular o nosso próprio laço, que um dia foi cordão.

Então eu boto fora a amargura que me cobria ao questionar o que, afinal, conquistei em 50 anos, e escolho me enfeitar de orgulho e alegria para celebrar a trajetória que me trouxe até aqui, o tanto que neste meio século de vida eu construí. Não foi pouco – e ainda quero muito mais.

Helê

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