AmarElo

Quando assisti ao vídeo da canção “AmarElo”, que sampleia o “Sujeito de Sorte”, do Belchior, achei bacana, corajoso – puxa, misturar a Pablo Vittar com rap, que inusitado! Mas foi só isso, não despertou uma curiosidade maior. Não vejo muitos clipes no YouTube, nem tinha muito contato com rap (até me encantar com Baco Exu do Blues); fui atrás do burburinho da minha bolha. Que novamente se alvoroçou quando saiu o álbum, e comecei a ler indicações entusiasmadas aqui e ali. Gilberto Gil falou bem, Luiz Antônio Simas se derramou em elogios e então umas amigas queridas (do único grupo de whatsApp que eu participo voluntariamente) também recomendaram e eu decidi ouvir.

Pablo Vittar, Majur e Emicida

Por uma dessas intuições inexplicáveis eu achei que deveria escutar AmarElo inteiro e na ordem em que foi gravado, como fazíamos com os álbuns quando eles se chamavam discos. Decisão sábia, porque há nesse trabalho uma estrutura, uma coesão que fica mais intensa se você começa pelo início – ou melhor, por “Principia”, a primeira faixa, que me arrebatou como há muito não acontecia. (Na real, como raramente me aconteceu na vida). Os versos, os ritmos, a voz impecável da Fabiana Cozza, o sermão de pastor (!), o refrão que até hoje me comove quando ouço, com sua simplicidade e verdade profunda, tudo me deixou impactada de cara. Não esperava concordar com todo mundo logo assim, de primeira.

Mas era apenas o começo. Outras lindezas foram se sucedendo: “A ordem natural das coisas” parece feita pra quem, como eu, acorda muitas vezes antes do astro que é rei mas só vem depois de muita gente sair pra vida. Também me reconheci em “Pequenas alegrias da vida adulta”, que me estampou um sorriso largo mesmo no meio de uma tristeza grande. Àquela altura eu estava muito surpresa em me sentir tão à vontade numa casa em que eu entrava pela primeira vez. Nunca havia escutado Emicida antes (fora o vídeo). E surge “Quem tem um amigo tem tudo”, um maravilhoso samba sincopado com a participação de ninguém menos que Zeca Pagodinho. Aí eu tirei os sapatos e fiquei totalmente à vontade, morando nesse disco.

Eu tinha uma vaga implicância com o nome Emicida (pela associação com morte), e sabia pouco sobre rap e hip hop, além dos esteriótipos. Sempre respeitei como expressão artística, e reconhecia sua importância como cultura da periferia, mas à distância me parecia muito zangado, masculino, violento, ritmicamente limitado. Esteriótipos, eu disse. Imagina a minha surpresa com as canções solares desse álbum que começa dizendo: “Com cheiro doce da arruda/penso em Buda calmo/Tenso eu busco uma ajuda às vezes me vem um salmo”! Que tem risada de criança, história divertida, e Fernanda Montenegro declamando. Que traz batidas variadas, do samba em suas muitas vertentes ao balanço da dupla Ibeyi. Cada uma das minhas suposições superficiais sobre o gênero e o artista foram sendo amassadas a cada faixa. E a única ideia correta que eu tinha, de que as letras eram fortes e boas, também estava longe da realidade, porque são ainda melhores, incrivelmente poéticas e sofisticadas, um trabalho de ourivesaria em versos.

Desde a primeira audição eu praticamente não passo um dia sem ouvir AmarElo; já perdi a conta de para quantas eu pessoas eu já recomendei. Não insisto mais porque eu sei que a ênfase excessiva pode ter um efeito contrário. Só posso falar por mim: AmarElo me pegou no colo várias vezes, e é a ele que eu tenho recorrido e dado a mão nesses tempos cinzentos. Esse álbum talvez desempenhe em 2019 o papel que em 2018 foi do musical “Elza”: ser uma luz no fim do túnel, uma lembrança da minha (nossa) força, de tudo que somos capazes de suportar e superar.

Se em 2018 terminamos o ano dizendo que “ninguém solta a mão de ninguém”, AmarElo dá o mote para  chegar ao final deste ano cruel: “tudo que nós têm é nós”.

Eu ando naquele estado que já descrevi como levemente obcecada – neste caso, pelo Emicida. Já passei para o disco anterior (também muito bom!) e li e assisti a várias entrevistas, e tenho gostado de tudo o que vejo; acho que esse rapaz é alguém em quem se deve prestar atenção. Mas não precisa me acompanhar nisso. Faça apenas um favor a você mesmo e ouça o álbum AmarElo – pra não morrer nesse ano, para se surpreender, para recuperar o afeto e fortalecer o elo com o que nos mantém de pé.

 

Helê

 

5 Respostas

  1. Depois dessa verdadeira ode em forma de resenha, não tem como não ouvir. Antigamente dizíamos “corri para a loja para comprar o LP”. Hoje a gente corre pro spotify. Como não tenho spotify (engraçado como esse nome parece uma onomatopeia em inglês), vou ver no Youtube.
    (Sinceramente, preferia a época em que esperávamos pra ouvir no rádio… Desculpe o nostalgismo…)

    Spotify parece um prato que caiu e espatifou, né? :-D
    Também morro de saudades do rádio, Chris (
    radio, someone still loves you). E dos LPs, seus encartes informativos, artísticos, complementares.
    Mas a gente segue suspirando e ouvindo novas belezas pra não submergir na nostalgia…
    beijoca,
    H.

    Liked by 1 person

  2. Mais uma vez me encanto (não sei por que ainda me surpreendo) com a ourivesaria que é a sua escrita.. viajo junto e encontro companhia. Compartilho dos mesmos desconhecimento/respeito/estereótipos com relação ao Emicida. Vi o clipe com Majur e Pablo e gostei muito, mas parei por aí. Vou seguir suas pegadas e ouvir o “disco”. Valeu pela dica. Bjos!!

    Obrigada, irmã. Ser companhia é uma das minhas pretensões aqui, que bom conseguir. Depois me fala se você curtiu, o que achou.
    Beijoca,
    H.

    Liked by 1 person

  3. Chorei lendo seu texto, sis.

    Oh, Mana! Tamo junto no abraço que esse álbum pretende ser. <3
    Bj,
    H.

    Liked by 1 person

  4. Eu falei que fiquei desbundada no Rock in Rio, com o show, as Ibeyi, a Majur, com tudo! Ninguém me deu atenção, rsrs, mas Emicida tomou meu coração ali <3

    Aguardando ansiosa o lançamento aqui no Rio!
    Beijoca, Dear.
    H.

    Liked by 1 person

  5. Helena,
    Estou nessa mesma levada, ouvindo o dia todo, cada dia descobrindo um novo detalhe, um verso especial, uma delicadeza.
    Estou igual gente convertida tentando fazer todo mundo viver essa mesma descoberta. Adorei ler seu texto!
    Um trabalho lindo mesmo esse álbum!
    Necessário e poético!
    Beijo grande

    Então sigamos espalhando a palavra de Emicida, Renata! :D
    Beijo e obrigada por comentar ;-)
    Helê

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: