Vou beijar-te agora

Se você escreve publicamente, digamos, para um blogue, saiba que tudo que você disser poderá ser usado… a seu favor (pelo menos aqui, nesse nesse boteco família que eu e mi sócia fundamos e mantemos, servindo bem para servir sempre. ;-) ).

Nesta semana, G. me lembrou que estava chegando a época do ano em que a alegria é a regra e revogam-se todas as disposições em contrário, uma lei que eu mesma escrevi aqui há alguns carnavais atrás. Confesso que não lembrava; vivemos tempos difíceis e dias de incerteza e angústia.

Mas os amigos/leitores estão aí para nos lembrar do que escrevemos e no que acreditamos: na alegria, no carnaval, na amizade e que vai passar. Como tudo, como passa o bloco pela rua transformando estranho em amigo, solidão em companhia, realidade em fantasia. Então dá licença que eu vou ganhar a rua, abraçar o carnaval e esperar que ele me beije de volta.

Sem esquecer o conselho de Elke Maravilha: “Não tenha juízo e não se comporte, mas se cuide!”

Bom carnaval pra geral!

Helê

Histórias negras

Comecei meu sábado meio desanimada (aliás, a semana toda tinha sido assim) e resolvi ticar alguns itens da minha lista na Netflix. (Parênteses: uma vez eu li em algum lugar que a Netflix tinha contratado o Adam Sandler – faz tempo, isso, né? – pra fazer alguns filmes para a plataforma. Isso porque eles perceberam que as pessoas incluem vários filmes interessantes, filmes de arte, filmes dramáticos, etc, na lista, mas o que de fato é assistido são as comédias leves. Tipo assim: eu quero ver filmes significativos, mas não agora. Enfim. Fim do parênteses.)

Nessa linha dos “filmes significativos mas não agora” minha lista incluía uma sugestão do algoritmo, um filme chamado Lionheart. É o primeiro filme nigeriano com distribuição mundial pela Netflix. Eu já tinha ouvido falar na chamada Nollywood, a prolífica indústria cinematográfica da Nigéria, mas nunca tinha tido a oportunidade de assistir uma de suas produções. Fico feliz por minha primeira experiência já ser de cara um filme de que gostei tanto. Fica aí o agradecimento à Netflix por suas contribuições ao globalismo cultural (disclaimer para eventuais paraquedistas de palavra-chave: não existe globalismo cultural e eu estou sendo irônica, talkey?).

Assistir um filme nigeriano é por si só uma experiência impactante. Se nós aqui deste país pseudo-ocidental, em que predominam produtos culturais estrelados por gente branca, comemoramos o elenco predominantemente negro em um filme de super-herói, imagine um filme cujo elenco inteiro é de pessoas negras. E elas não vivem em uma realidade fantástica, um país mítico, um mundo de super poderes. Elas são pessoas comuns, algumas ricas, outras mais ricas ainda. O filme tem uma trama corporativa – uma empresa de ônibus que corre o risco de fechar ou ser comprada por um empresário inescrupuloso. E aí vem a cereja do bolo: a protagonista, a heroína que chega para salvar o dia, é uma mulher. Quer dizer, por sua trama, Lionheart é um filme que poderia se passar em Chicago, estrelado por homens brancos norte-americanos, mas não: ele é um filme muito nigeriano, ele mostra questões étnicas, questões sociais, mostra uma estética diferente da que estamos acostumados a ver, mas além disso ele conta uma história bem contada, protagonizada por pessoas que normalmente nós só vemos como exóticas – ou não vemos at all.

***

O sábado começou bem, e resolvi continuar no clima da maratona de filmes. Há poucos dias tive acesso a alguns lançamentos recentes, digamos assim, por meios não-oficiais. Vi Judy, com a Renne Zellweger (sei lá como escreve) e achei no máximo passável. Aí resolvi encerrar com Harriet, que tinha chamado minha atenção quando recebeu duas indicações ao Oscar.

A história de Harriet Tubman é, por si só, impressionante. Ela nasceu escravizada, fugiu, conseguiu atravessar 160 quilômetros a pé, desde uma fazenda em Maryland até a Filadélfia, onde já não havia escravidão. Não satisfeita em conquistar a própria liberdade, ela se uniu a uma organização de negros abolicionistas e fez inúmeras viagens, correndo riscos altíssimos, para resgatar seus pais, irmãos, amigos e muitas outras pessoas escravizadas. Segundo consta nos registros históricos, Harriet foi responsável pela libertação de mais de 300 pessoas – ela as resgatava nas fazendas e guiava por trilhas secretas que ficaram conhecidas como “a ferrovia subterrânea”, ligando os estados sulistas ao norte dos EUA e ao Canadá.

É claro que uma vida como essa tem tudo para dar um ótimo filme. E deu. Mas o aspecto mais interessante é que em Harriet (o filme) nós vemos de fato uma história de protagonismo negro. Não há um branco heroico que aparece no final para salvar todo mundo ou para “endossar” a luta dos negros. No filme, os brancos são coadjuvantes – ou vilões. É uma perspectiva importante, mas mais do que isso, é um filme bom. E não há nada mais pedagógico do que uma história bem contada.

***

Não escolhi ver esse dois filmes em modo combo de propósito, mas lá pela metade de Harriet me dei conta de que estava tendo um sábado mais ou menos temático. Foi bastante inspirador.

Monix (há! pensou que era a Helê? Te peguei.)

Pastilhas Garota* (de meia idade)

O carioca é mesmo um ser muito desbocado. Criou uma alternativa xrated para o etcétera, que é, como se sabe, oscaralho. Pode denotar um sentido coletivo (“Ele levou pai, mãe, filho e oscaralho); ou intensidade (Vai desfilar em três escolas, nos blocos e oscaralho). Mas se a intensidade for muita, utilizamos o superlativo ocaralhoaquatro. Um fino, o carioca.

*

Tem certas palavras ou expressões que se auto denunciam como falsas. Adquiriram uma reputação tão ruim que, mesmo quando usadas legitimamente, inspiram desconfiança. Coisas como “não é que eu seja….” – já era, irmão, pra mim você é o que quer que venha depois. Ou quando o sujeito fala que “não é de esquerda nem direita” – direitoba, certamente. Em mim já dá vontade de centralizar um soco, pro cabra parar de tentar me enganar.

*

Quando eu tinha uns 10 anos, meu pai me disse algo que me chocou: “tudo é política, todo ato é político”. Tentei o que me parecia mais impossível: “Até um beijo?” Ele, convicto: “Até um beijo”. Não foi na hora, mas logo depois eu entendi o que ele quis dizer, e hoje agradeço a ele essa lição precoce, porque me poupa de certos vexames. Como um juiz federal dizer que a greve dos petroleiros é política. O que não é, moço?

*

Não quero me acostumar com a vida de desempregada. O horário é bom, mas paga muito mal.

*

E atenção, recrutadores: vamo combiná que pretensão salarial num pais com 13% desempregados é uma cretinice brutal, não? Joga o candidato um dilema terrível, porque ele não deve pedir alto demais, tão pouco se desvalorizar, mas nos dias atuais a grande pretensão tem sido conseguir um emprego. Tenho vontade de devolver a bola para o empregador em forma de enigma: minha pretensão é receber três vezes mais o que eu aceitaria. Ele que lute pra saber quanto é isso.

*

Trudia tava zanzando pelo YouTube e comecei a assistir uma entrevista do Paulo Coelho. Ele metia o pau no Pesadelo Eleito®, estarrecido com as declarações, os ministros e oscaralho. Aí quando o cabra pergunta: “O que ainda te dá orgulho no Brasil”, o mago responde: “o povo”. E eu: “Hã?! O mesmo que elegeu esse imbecil?” Vamos parar de romantizar o Brasil?

Avenida Paulista, São Paulo
Photo by Lucas Martins @lucasport01
everydaybrasil

Helê

*Porque Drops, só da Fal

®Tina Lopes, que se não inventou essa expressão precisa, foi quem me ensinou

Julice 1.7

Minha filha pediu para receber os amigos em casa sozinha, no aniversário de 17 anos. Pensei, pensei e não encontrei motivos para negar – poucas pessoas, pouco tempo, conheço a maioria… Repeti muitas vezes as mesmas recomendações – no sex, no alcool, no bagunça no elevador e nada de danificar a propriedade (que nem própria é) – e permiti.

Fiquei fazendo hora no shopping, pensando se fiz certo ou não – afinal, mãe sem culpa e dúvida nem mãe é. De vez em quando mandava uma mensagem investigativa: “Tudo bem?” “Jesus tá no controle?” Respostas relativamente rápidas, positivas e plenas de rsrsrs.

Cheguei e a casa estava de pé – ufa. Como ainda havia convidados, fui para o meu quarto, pra não atrapalhar. Sem perceber adormeci; acordei com a aniversariante me dando um beijo, boa noite e dizendo: “Mãe, obrigada por confiar em mim.”

Dormimos felizes.

African mother and daughter having a great time together | premium image by rawpixel.com

Helê

 

Um retrato do Brasil

Severino bordando, na porta de sua casa, a gola de caboclo que ele vai usar no Carnaval. Tracunhaém, mata norte de Pernambuco.
Do twitter da Fabiana Moraes

Reza a lenda (urbana) que João Gilberto teria dito, ao ver uma mulher negra descendo o morro, “Olha o Brasil descendo a ladeira!”. A partir dessa “exclamação poética”, Moares Moreira escreveu sua conhecida canção. Pois eu tive reação semelhante ao ver essa foto hoje: de estar vendo o Brasil – ao menos aquele que me interessa, instiga e inspira. Um ao qual eu pertenço e em que me reconheço: tudo nessa foto soa familiar, embora eu não nunca estado em Tracunhaém e tão pouco tenha visto um Caboclo de Lança ao vivo. Não queria morar nessa foto: sinto que, de algum modo, eu vivo ali. 

Helê

Desculpas

Nos tempos que correm, em que o tribunal da internet funciona célere e sem direito a recurso ou habeas corpus, com pessoas sendo “canceladas” (como se fossem um evento), e em que  o anonimato dá coragem momentânea a covardes permanentes, é preciso ter cuidado com o que se diz on ou off line. Estamos todos mais beligerantes, e também muito apressados e sobrecarregados, o que cria um ambiente propício à proliferação de mal-entendidos, juízos apressados e, claro, erros.

Por isso considero que tão ou mais importante que o cuidado com o discurso, a atenção no momento de pedir desculpas – pessoas físicas e jurídicas; usuários, influenciadores e marcas. Primeiro porque sua chance de errar ao fazer um post (ou simplesmente abrir a boca) é de pelo menos 50%. Mais cedo ou mais tarde você pode ofender, aborrecer ou incomodar alguém na praça pública que é a internet, com seus coretos diversos (twitter, facebook, etc). E depois porque um pedido de desculpas genérico, vago ou falso é feito roupa transparente: revela mais do que cobre; potencializa o erro ao invés de amenizá-lo.

Na minha cartilha as regras são duas e claras (como diria o Arnaldo)

  1. é sobre você ter errado, o foco são as suas desculpas

  2. seja breve: quanto mais você fala, menos convincente é

Explicando um pouco mais: muitos pedidos de desculpas tropeçam ao colocar em dúvida a ofensa – “desculpas se ofendi…” Irmão, se você não tem certeza se vacilou ou não, tá pedindo desculpas por que? Outro falha clássica é transferir o foco ( e, de maneira subliminar, a culpa) para o outro: “não entenderam”, “fui mal interpretado”. Novamente, se o problema é do outro, não cabe a você se desculpar, certo? Ou você não está realmente arrependido?

Sobre a regra 2, trata-se de uma questão de estilo que aprendi com o tempo. Ainda que você seja do tipo prolixo, sua desculpa deve ser objetiva, direta e curta, se possível condensada numa sentença. Se não for, provavelmente você está infringindo a regra 1.

Eu só me lembro de um caso, nos últimos anos, de um pedido de desculpas que desconsidera a segunda regra mas consegue enfatizar tremendamente a primeira; parece-me completamente sincero. Foi feito pelo fotógrafo An Le, responsável pela fotografia e pela edição da imagem em que o cabelo da atriz Lupita Nyong’o foi alterado na capa de uma revista. Em suas redes sociais, a atriz se disse decepcionada pela edição que apagou parte de seu cabelo “para se adequar a uma noção mais eurocêntrica do que é bonito”. An Le divulgou uma nota afirmando: “um erro monumental que fiz e gostaria de aproveitar para pedir desculpas a Nyong’o e a todos os outros que ofendi. Embora não fosse minha intenção ferir ninguém, posso ver agora que alterar a imagem de seu cabelo foi um ato incrivelmente prejudicial e doloroso. Não nasceu do ódio mas de sua própria ignorância e insensibilidade com o constante descaso com as mulheres negras em diferentes plataformas midiáticas.” (matéria sobre o caso, que aconteceu em 2017,  no Huffington Post)

Um raro exemplo de eloquente autocrítica. Na dúvida, fique com as duas regrinhas. 

Helê 

Salve Yemanjá!

Daqui

Odô Yá!

Pra dona do mar nos abençoar (reza)
Pro amor florescer, pro bem imperar (reza)
Reza pra quem não crê
Reza pra conquistar
Reza pra agradecer o dia que vai chegar
Reza pra quem tem fé nas lendas que vêm de lá
Reza pra proteger tudo nesse lugar

Reza – Pretinho da Serrinha

***

Nesse dois de fevereiro, além de saudar Yemanjá, que tal aproveitar para conhecer mais sobre uma página infeliz da nossa história? Totalmente por acaso eu esbarrei nessa bela matéria do Uol, assinada por Carlos Madeiro, sobre um ataque acontecido em 1912: Terreiros atacados, religiosa espancada: o dia sangrento que o país ignora. Poucas horas depois, vi que mestre Simas tuitou sobre o assunto – e ele é sempre referência de responsa nessas questões . Esse episódio do Quebra de 1912 (ou Quebra de Xangô) me fez pensar: 1) na violência atávica da nossa sociedade; 2) que lugares como Maceió nunca aparecem como locus importante para a cultura afro-brasileira, mas desconhecemos a que preço a história foi apagada; e 3) a perseguição aos cultos de origem africana – que se intensifica a cada dia e que Luiz Antônio Simas denomina com propriedade de terrorismo religioso -, vem de longuíssima data. Defender o direito de manifestação dessas religiões, denunciar ataques e intimidações é dever de todos nós brasileiros.

Helê

PS: Leia também matéria sobre o Xangô Rezado Alto, cortejo realizado para lembrar o Quebra e fortalecer as tradições religiosas de matriz africana. 

 

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