À luz

Eu não assisto BBB há umas 19 edições. Entre vários motivos, porque acho chato mesmo. Então, pelas minhas próprias regras, não deveria falar sobre algo que não conheço. Entretanto falarei, amparada em uma das regras magnas desse blogue (a do calaalabocajámorreu), e porque muito pouca gente nesse país quarentenado ficou alheia aos desdobramentos do programa esse ano. Minha filha, que nunca havia assistido antes, pegou o bonde no meio e foi com ele até o final; ontem soltou a frase que definiu seu envolvimento: “Ainda bem que acabou, não aguentava mais gostar de BBB”.

Se bem que não é exatamente sobre o programa que quero falar. Acontece que a popularidade incontestável do Babu e a surpreendente vitória da Thelma me fizeram lembrar uma teoria que elaborei há algum tempo, defendida na Universidade Mesa de Bar, sobre o que eu chamava de “negritude difusa”, uma propensão popular a torcer e apoiar negros ou aspectos a eles relacionados, em certas situações – embora sem explicitar que era a etnia que estava em jogo.

A primeira vez que pensei sobre isso foi na Copa de 90, quando o Brasil se encantou com a seleção de Camarões de Roger Milla. Eu sei que você não era nascido, bebê, então deixa eu te contar: eliminados pela Argentina, os brasileiros adotaram a seleção camaronesa. Passamos a acompanhar e torcer de verdade, de juntar no bar ou fazer churrasco pra vê-los jogar. Lembro de ter ido assistir ao jogo definitivo na casa de amigos e, no trajeto que fiz entre Vila Valqueire e Laranjeiras – que é praticamente cruzar a cidade -, vi várias janelas com bandeiras improvisadas de Camarões, feitas com qualquer pano que tivesse as cores do país. E na hora do jogo, os gritos e comemorações foram semelhantes àqueles ouvidos nos jogos do Brasil. Um fenômeno desses é difícil de explicar; contribuiram para isso o futebol solto e ingênuo dos africanos, a simpatia de Milla, a possibilidade improvável de vitória de um underdog. Mas também torcíamos por irmãos africanos, pelos negros – embora essa correlação nunca fosse explicitada.

Muitos anos depois, um amigo trabalhou diretamente com o então ministro do Supremo Tribunal de Federal, Joaquim Barbosa. Acompanhou-o em seu momento de maior visibilidade e tensão. Esse amigo me contou sobre as pressões sofridas, os constrangimentos discriminatórios (dos quais um negro nesse país não escapa nem mesmo sendo presidente do STF), várias histórias. Mas as mais impressionantes e comoventes vinham das camadas mais humildes da população, que viam Joaquim com um misto de orgulho, respeito e esperança. Uma relato inesquecível diz respeito a uma visita do então ministro a um presídio no norte do país. Em um ambiente hostil por natureza, especialmente para autoridades, Joaquim Barbosa foi tratado com reverência, como “o cara”, como aquele que, apesar da origem humilde, “deu certo”, ascendeu honestamente. Também nesse caso, vários fatores podem justificar a popularidade de Joaquim, mas a classe, sozinha, não inspiraria a mesma admiração sem o componente racial. Nesse episódio da cadeia, os detentos ofereciam as mãos para serem tocados pelo ministro, e diziam coisas como: “O senhor colocou branco rico na cadeia, antes a tranca era só pra gente”. Barbosa era – e talvez ainda seja – visto como um “negro que deu certo”, e além disso foi destemido no enfrentamento aos poderosos (que nesse país é também um sinônimo para brancos).

Tudo isso é digressão de botequim, como avisei de início, não há ciência alguma no que digo. É só uma Teoria de Mesa de Bar que talvez não se sustente depois da 20ª edição do BBB. Porque não há nada de difuso na popularidade do Babu (tecnicamente, o 4º colocado, mas reconhecidamente o vencedor dessa disputa) e na inesperada vitória da Thelma. Raça e racismo estiveram em pauta ao longo de boa parte do programa (que, a propósito, no ano passado premiou uma pessoa identificada por grande parte da audiência como racista). As redes sociais hoje estão repletas de pessoas comemorando a vitória de uma mulher negra, e embora o BBB tenha destacado a “narrativa das mulheres” (um jeito que a globo inventou de falar de feminismo sem ousar dizer o nome), foi a raça ocupou um lugar inédito nos corações e mentes dos espectadores, e sobretudo na fala, deixando a clandestinidade, o lugar do implícito e do subentendido.

A desigualdade para os negros em geral e para as mulheres negras em particular amanheceu igualzinha, não tenho dúvidas. Mas talvez tenhamos ganhado uns pontos nas trincheiras do discurso. E uma batalha fica mais franca e justa quando podemos nomear com precisão quem são nossos inimigos e nossos aliados, e porque fazemos nossas escolhas.

Helê

Monix Day – edição 50 anos

Achou que a gente não ia comemorar o aniversário da Otra?

Foto: Martha Twice

Achou errado!

Hoje, mais do que em qualquer outro dos 14 ou 15 Monix Days anteriores, conto com o seu comentário para celebrar a chegada da nossa Hermione na Casa dos 50. Não se reprima, não se reprima: deixe seu comentário, beijo, declaração para confirmar o que a gente já sabe: que o aniversário é dela mas a sorte é nossa de tê-la em nossas vidas!

Viva Monix!

(E Joca, Joana e Calu!)

Helê

PS: Por determinação de mim mesma: declaro que todo aquele e aquela que fizer aniversário durante a quarentena tem direito à comemoração posterior, não cumulativa.

 

Valei-me São Jorge!

“Guerreio é no lombo do meu cavalo
Bala vem mas eu não caio, armadura é a proteção”

Que Jorge guarde todos nós!

Viva São Jorge Guerreiro!

 

Helê

Parabólico

Quando eu era criança, Chico Buarque era trilha sonora frequente dos fins de semana, no toca-fitas do meu pai. Aprendi cedo que Chico é um dos maiores poetas que a música brasileira já conheceu, e cresci admirando seus versos, suas melodias e sua voz tímida e tão carismática.

Na adolescência, descobri Caetano Veloso, com sua exuberância erudita, suas letras tão instigantes para uma garota que estava descobrindo o mundo, seus ritmos deliciosos de cantar junto, sua presença leonina que ocupa todos os espaços.

Os dois moram no meu coração até hoje e para sempre.

Mas foi só depois de adulta que entendi que o verdadeiro gênio daquela geração é Gilberto Gil. Tanto assim que Caetano atribui a ele o fato de ter continuado na música. Conto a história de cabeça, pois não consegui encontrar no Google um registro sobre isso, mas consta que Caetano em algum momento, antes da fama, teria dito que ia desistir de tentar a carreira na música, não sei se por dificuldades financeiras ou por alguma insegurança artística. Aí Gil respondeu: se você desistir, eu paro também. Caetano pensou que não queria ser responsável por fazer o mundo perder tamanho talento (aqui já rola uma licença poética para minha imaginação, relevem) e assim ficamos com os dois.

Documentário da HBO mostra julgamento e condenação de Gilberto Gil ...
Este é o verdadeiro gênio da melhor geração de gênios que a música brasileira já teve.

Esses dias aproveitei um intervalo entre o trabalho e a faxina e assisti o documentário Refavela 40, que estava na minha lista há tempos. E está tudo lá: Gil pioneiro, poeta, um músico incrível, e dono de um charme imbatível. Esse homem é a verdadeira antena parabolicamará.

Eu costumo dizer, meio brincando, que não existe um tema sobre o qual não haja uma canção de Gilberto Gil. Confiram aí. Ele falou sobre tudo, e falou lindamente.

-Monix-

Um aprendizado classe-média-sofre

Tem muita gente aproveitando a quarentena para fazer cursos online, para se aperfeiçoar, para assistir lives sobre temas edificantes.

Esses são os privilegiados. (Ou os mentirosos – ops, desculpaí o sincericídio.)

Eu estou como muitas pessoas que conheço, e o termo que melhor define é em inglês: overwhelmed. Fazendo coisas demais e mal dando conta do mínimo, do básico. Eu já trabalhava em casa, então meu dia não ganhou duas horas porque parei de me deslocar até o trabalho. E passei a acumular muitas rotinas da casa que eram responsabilidade de duas diaristas (uma para a faxina, outra para a comida, cada uma vindo uma vez por semana).

Muitas amigas mulheres têm me dito que se sentem da mesma forma. Que o dia se resume a uma alternância exaustiva entre trabalhar, fazer reuniões remotamente e cozinhar, lavar louça, lavar roupa, varrer a casa quando dá.

IDA - VAI TER LOUÇA QUADRO 22 CM X 22 CM - Tok Stok - M
O mantra do momento

Enquanto isso, ouvi de dois homens comentários um pouco diferentes. Ambos falaram sobre seus aprendizados durante a crise. Um disse que aprendeu a cozinhar feijão. O outro, que descobriu que existe um produto chamado Vidrex, usado para limpar os vidros da casa – é, este não é um trabalho dos elfos domésticos.

Eu aprendi, também, a cozinhar feijão – até cozinho bem, mas arroz e feijão são coisas que nunca consegui acertar muito bem. Vidrex eu já conhecia. Mas esses não são nem de perto os grandes aprendizados que vou tirar dessa crise.

O primeiro deles eu diria que é algo que sempre intuí: o dinheiro, em si, não vale nada. Lembro de falar sobre variações dessa ideia desde muito jovem: o importante não é o dinheiro, são as coisas que ele pode me dar. Parece óbvio, mas na prática as pessoas tendem a ser muito mais apegadas ao dinheiro em si do que aos bens que ele permite usufruir. E no fundo, quando somos confrontados com uma situação-limite como uma pandemia dessa proporção, o que vale mesmo é ter abrigo e comida. Coisa que os homens das cavernas tiveram durante séculos, sem precisar acumular essa coisa abstrata chamada capital.

Mas o maior aprendizado que extraio dessa experiência extrema é o valor do trabalho doméstico. Também é algo de que falo há muitos anos: que as “mulheres de antigamente” não cuidavam dos filhos sozinhas, pois havia sempre outras mulheres na casa ajudando (uma tia solteirona, uma avó viúva, vizinhas, babás). E que na verdade elas passavam era muito tempo cuidando da casa: entre preparar uma refeição, arrumar a mesa, lavar a louça, depois guardar, já estava na hora de começar tudo de novo, até a hora de dormir.

Estas semanas têm me proporcionado essa experiência na prática. E eu tenho máquinas que ajudam muito: aspirador de pó, lava roupas, lava louças, liquidificador, microondas… Fico imaginando as mulheres de antigamente e sua vida dura. Ou as mulheres de hoje mesmo, que não têm esse meu padrão de classe média bem de vida, e que cuidam da minha casa e da casa delas e ainda conseguem manter o bom humor. Elas já tinham todo o meu respeito. Agora têm minha empatia. Quando me sinto muito cansada, digo a mim mesma para deixar de lado o classe-média-sofrismo e seguir em frente.

Essa crise está trazendo, sim, muitos aprendizados. Me conta quais foram os seus.

-Monix-

Notas da quarentena

**Na newsletter que enviamos no dia 11 de março eu comentei rapidamente sobre o abraço do Dr. Dráuzio e suas repercussões: a onda de solidariedade, num primeiro momento e, em seguida, uma tsunami de ira e indignação. Na despedida, desejei a todas e todos muitos abraços e nenhuma tsunami.

Mas ela veio.

E varreu, além da normalidade, a possibilidade de abraços.

Rio de Janeiro, RJ
Foto: Ana Carolina Fernandes @culafernandes para o coletivo @covidlatam. Grafite @nogenta_ e @contraconsciencia

** Impressionante como esse episódio do Dráuzio, que mobilizou tanto e sobre o qual eu escrevi menos de um mês atrás, parece agora algo muito distante. Deve haver até mesmo os que não lembravam. Talvez a mudança mais imediata e radical que estamos experimentando seja nossa relação com o tempo.

** Como os marcos cotidianos estão suspensos ou alterados – trabalho, escola, lazer – todo mundo confunde se hoje é segunda ou quinta, todo dia é um tal de “Comassim, meio-dia?!” e “Mas já é nove da noite?” Os dias se arrastam mas as horas voam, as semanas se misturam e a tarefa de contar o tempo perdeu os referenciais coletivos.

** O tempo também se altera em função do espaço. Dizem que estamos a uma ou duas semanas de viver o que aconteceu com a Itália — estamos, portanto, no passado deles. Alguém nos Estados Unidos alerta: “Lembre-se que estou duas semanas à frente de vocês, em termos de pandemia”, como se mandasse um recado do futuro.

** Certo está o tuíte que disse: só existem três dias na semana: ontem, hoje e amanhã.

** Participo de pouquíssimos grupos de whatsApp. Meu favorito eu admiro, entre outras coisas, porque só fala quando necessário — por necessário entenda-se desde unha lascada até crise na Gávea, o nosso conceito de necessário. Que exclui ‘bom dia, grupo’ e memes e textões que todo mundo já viu. Pois bem, nesse grupo agora conversamos todos os dias, às vezes em vídeo, sobre as coisas mais comezinhas. “Hoje a máquina quebrou”, “Meu marido cozinhou feijão no dia errado”, “Fiz frango e deu certo”. Numa situação extraordinária fortalecemos nossos laços reforçando normal, o cotidiano.

**Falo com minha mãe por vídeo quase todos os dias, faço a ronda dos amigos, como mensagens periódicas para saber se estão todos bem, seguros. Não consigo terminar um e-mail, telefonema ou zap sem dizer no final: se cuida. E o coração aperta.

**Da série banalidades: eu agradeço sempre que pandemia caiu depois do carnaval. E que eu faço aniversário no segundo semestre.

** Eu, que sempre apreciei os momentos que em que o mundo parece uma vila – olimpíadas, casamento real , final de Game of Thrones – percorro o noticiário internacional entre angustiada e curiosa, querendo compreender de que maneira pessoas distantes estão vivendo a mesma ameaça (ainda que em “fusos” diferentes). Observo a política (e as politicagens), as inflexões culturais, e as histórias gentis. Guardei com carinho a delicadeza dessa: no auge da crise em Wuhan, o Japão doou para a China centenas de máscaras de proteção; nas caixas havia um verso em chinês: “Embora em lugares diferentes, estamos sob o mesmo céu”.

**Não sei se nos salva da extinção, mas ao menos uma sobrevida o jornalismo ganha com essa pandemia. Arrisco dizer que, nas atuais circunstâncias, os jornalistas só perdem em importância para os profissionais de saúde.

**Lembre: você não está trabalhando de casa. Você está em casa durante uma crise tentando trabalhar.

Rainha Elizabeth II fala sobre a pandemia de coronavírus: "Dias ...

**A fragilidade dos velhos e o susto dos mais novos me fincou na posição de adulta. Aí quando vi Betinha dizendo que tudo, tudo, tudo vai dar pé eu me emocionei. Tá, eu sei que não era comigo, nem súdita dela eu sou. Mas eu, que desde o começo busquei tranquilizar os meus, ainda não tinha ouvido aquilo que disse mais com esperança do que convicção. Foi reconfortante ouvir de alguém mais velho e experiente, uma vó, que vamos superar. Foi bom, por alguns instantes, não ser o adulto.

** Quando é que a gente vai se abraçar novamente?

Helê

 

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