Adeus ao poeta do cotidiano

Quando eu era criança, não tínhamos vitrola em casa. Havia um rádio AM/FM e um toca-fitas. Havia também um acervo muito rico de fitas cassete com pérolas da música brasileira dos anos 1970: Chico Buarque, Caetano Veloso, Martinho da Vila, Beth Carvalho, MPB-4, Vinícius e Toquinho… e, claro, não podia faltar nessa lista a dupla João Bosco e Aldir Blanc.

Aos sábados, meu pai escolhia algumas fitas e botava para tocar. Cantando juntos aprendemos as letras das músicas, e papai fazia questão de destacar a beleza de um ou outro verso especialmente poéticos.

Foi só depois de muito tempo, já mãe de um pré-adolescente, que me dei conta do privilégio que foi crescer no Brasil musical da década de 1970. Isso porque quando o fridinho chegou lá pelos 12 ou 13 anos percebi que ele não conhecia quase nada de música brasileira, e do pouco que conhecia não gostava. Claro que esse problema foi resolvido rapidamente: a cada saída de carro ouvíamos uma banda, um cantor ou um álbum antigos, e assim cobrimos (em parte) esse déficit geracional. Nascer nos anos 2000 certamente não proporcionou um ambiente musical tão rico quanto o da minha infância — longe disso, na verdade.

Bem, voltando às tardes de sábado, devo confessar que João Bosco e Aldir Blanc não eram meus preferidos, dado esse olimpo de estrelas que tínhamos disponíveis. Mas as canções da dupla tinham uma característica diferente, um jeitão de crônica, como que cantando coisas que poderiam acontecer ali na esquina de casa. “De Frente Pro Crime”, por exemplo, é quase cinematográfica em sua descrição de uma cena trágica.

Compositor e escritor Aldir Blanc morre aos 73 anos no Rio de ...
Adeus, Aldir.

Ontem, quando veio a notícia da morte de Aldir Blanc, senti uma tristeza profunda, como quando se foi Moraes Moreira, outro ícone da minha infância, ídolo das minhas tias mais jovens. E ao me despedir de Aldir, artista que fez parte da trilha sonora mais remota da minha vida, me lembrei de um daqueles versos que papai mais admirava, por sua capacidade de ver poesia em algo tão trivial quanto um sapato apertado:

No dedo um falso brilhante
Brincos iguais ao colar
E a ponta de um torturante
Band-aid no calcanhar

(Dois pra Lá, Dois pra Cá)

-Monix-

Uma resposta

  1. Lindo texto para um momento triste…

    Obrigada, Márcia.
    Volte sempre – a casa é nossa ;-)
    Helê

    Liked by 1 person

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