Projeto

Para a nossa newsletter de ontem escrevi uma ou duas linhas boas que não quis deixar restrita aos assinantes. São daquelas muitas que surgem durante a escrita, num fluxo direto: cabeça, mãos, teclado e ôpa! de onde veio essa ideia que eu não tinha pensado antes? (Mais uma razão para receber a nossa news: somos pressionadas a escrever ao menos uma vez por semana pelo motor mor do jornalistmo, o prazo. E a pressão às vezes é uma boa editora).

Falamos na news sobre a pauta incontornável desde que o assassinato de George Floyd ganhou as redes sociais e a mídia: o racismo e o extermínio da população negra. A curva da nossa indignação atingiu seu pico e levou às ruas milhares de americanos e também outros cidadãos do mundo. Ainda vivemos todos ameaçados pelo novo coronavírus – em maior o menor grau, variando de acordo com a competência e obtusidade de cada chefe de estado -, mas não foi possível adiar. Diante da brutalidade policial exercida lenta e deliberadamente, sem um traço de constrangimento ou preocupação, a pandemia que vitimou mais de 100 mil americanos pareceu menos letal que a truculência repressiva do estado. Hoje, o resultado da autópsia de Mr. Floyd indicou que ele estava infectado com o vírus da Covid-19, mas nesse caso a doença foi uma comorbidade, entre tantas outras, para a causa mortis que adoece e mata há mais tempo: o racismo.

Foto: Nelson Almeida/GettyImages

O Brasil, que se esforça pra ser sempre o melhor pior, consegue tornar ainda mais dramática a questão com uma absurda lista de crianças e jovens negros assassinados pela ação do aparato policial militar. A quem, aliás, não se pode acusar de incoerência: foi constituído originalmente para proteger a propriedade e as elites, e se mantém fiel aos propósitos fundadores, utilizando em suas hostes membros das mesmas classes que são treinados a abater.

Photo by: Miami- Dade Corrections

Talvez por isso as cenas que mais têm me emocionado nas manifestações americanas são aquelas em que policiais demonstram apoio aos manifestantes. Os que se ajoelham, no gesto ressignificado por Kaepernick, os que ouvem as pessoas, os que garantem a segurança delas mais que as propriedades, os que abraçam. Aqueles que, mesmo que momentaneamente, rejeitam anos de treinamento, o privilégio da impunidade e da força e recuperam sua humanidade. Talvez seja preciso começar por aí a desarmar esse monstruoso mecanismo tão bem azeitado ao longo da história. Ou a gente vai continuar, como acertadamente definiu Emicida, “por nossa conta e risco nesse grande projeto de matar preto que é o Brasil”.

Helê

Uma resposta

  1. Eu vi em algum telejornal que a polícia que mais tem respeitado os manifestantes é justamente aquela que já tinha mudado o comportamento há algum tempo. É o caso da polícia de Nova Jersey, que chegou a ser uma das mais truculentas e depois trocou todo o corpo policial, não sobrou ninguém da época mais repressiva, passando a ser uma polícia da comunidade. Não sei se é o que realmente ocorre. Se for verdade, seria o caso de dissolver a polícia existente, seus métodos, tudo precisa ser revisto. Lá, aqui, em toda parte.

    Eu tenho ouvido na CNN muito sobre ‘refundar’ a polícia, embora não tenha ouvido sobre essa caso de New Jersey. Não sei se/como é possível, mas o ideal seria mesmo começar tudo de novo, já que tem aí um ‘pecado original’, né?
    Bom te ver por aqui, Elis! Volte sempre ;-)

    Helê

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